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Opinião

Este turismo merecia uma estátua

Este turismo merecia uma estátua

Portugal foi contemplado recentemente com nove invejáveis "óscares do turismo". Dos campos de golfe à praia, vencemos um pouco de tudo e provamos ao Mundo que não somos só bons a derreter as finanças públicas. Também temos "greens" de excelência.

A cidade de Lisboa venceu na competitiva categoria das estadias de curta duração o "World Travel Awards". Se a distinção já era boa, tenhamos fé que no próximo ano possa ser ainda melhor. A capital portuguesa será uma séria candidata ao prémio na categoria de "turismo vale tudo". É que há uma empresa na capital que exerce a sua atividade turística fiel a um peculiar lema: "A raptar e a obrigar turistas a amar Lisboa desde 2009". Em quatro anos de tão meritória promoção, a coisa deu para o torto apenas em 2013. O caso é público: um grupo de inglesas, provavelmente cansadas de cantar "happy birthday" vestidas de enfermeiras com chifres de diabo na cabeça a piscar algures em Temple Bar, trocaram a cinzenta Dublin pela luminosa Lisboa. Reservaram na "Da Company" a simulação de um rapto para celebrar um aniversário. A festa lançou tamanha confusão na Baixa lisboeta que a PSP foi inundada de queixas e ativou numerosos meios que acabaram com o "rapto" num ápice, depois de terem provocado um enorme susto a quem assistiu à cena. As turistas devem estar deliciadas com o realismo do "tour" alfacinha. Afinal, não é todos os dias que se acaba o aniversário numa esquadra e depois se segue para tribunal, ainda que sem sopro de velas. A questão é saber quais os limites de atuação deste tipo de empresa, como a que, só por mero acaso, foi descoberta no passado domingo. E isto apesar de "raptar" turistas há anos. E, já agora, saber se as entidades competentes atribuem alvarás a estes operadores para a realização de circuitos onde, provavelmente, só não vale arrancar olhos... "Raptar" é, de resto, uma parte ínfima da atividade da "Da Company". A agência também organiza roteiros pelos melhores tatuadores de Lisboa e até aconselha os clientes em matéria de drogas. Isso mesmo, leu bem. Se é turista e precisa de ser orientado - chamemos-lhe assim - em relação a substâncias alucinogénias, há quem trate do seu problema para que se sinta em casa.

Alcançar o céu sem sair da terra não é, contudo, um exclusivo dos operadores de turismo aventura, o que deixa antever um futuro risonho para a indústria.

O santuário de Fátima que se cuide porque o seu lugar de excelência no turismo religioso nacional pode estar ameaçado. Tudo porque o Papa Francisco decidiu conceder a chamada indulgência plenária a todos os que participarem na próxima peregrinação à Penha, em Guimarães. Quer isto dizer, na simplicidade prudente que coisas tão complexas como esta aconselham, que o documento rubricado pelo sumo pontífice dará entrada direta no céu a todos os que participarem na 120.ª peregrinação vimaranense, mesmo que já tenham passado pela casa pecado. Como contou exemplarmente o JN de ontem, não se trata apenas de um simples perdão dos pecados. E até isso já seria tarefa complexa. É, isso sim, "a liquidação do tempo que os pecadores têm no purgatório, que se mantém mesmo após confessados os delitos". São esperados 50 mil candidatos e a romagem está aberta a todos. Mesmo a operadores turísticos pouco católicos ou a turistas à procura de bizarras aventuras.