Opinião

Quanto vale uma vida na Queima?

Quanto vale uma vida na Queima?

Jacinto Correia e Maria Barbosa decidiram regressar a Portugal porque a Venezuela, para onde tinham emigrado, era um país muito perigoso. Por uma infeliz ironia do destino foi aqui, no país dos outrora brandos costumes, que o filho do casal, Marlon Correia, foi assassinado ontem com dois tiros nas costas. O estudante participava na contagem do dinheiro resultante da venda de ingressos no queimódromo, um espaço de lazer e de bebedeira coletiva explorado pela Federação Académica do Porto (FAP). Os ladrões, encapuzados, sabiam a hora exata em que a contagem estava a ser feita e atacaram aos tiros. Marlon não resistiu. Apesar da morte especialmente violenta e de o estudante ser colaborador da iniciativa e não apenas participante, a FAP não equacionou em qualquer momento suspender a festa. Para a federação estudantil parece ser mais importante seguir em frente com o encaixe financeiro de arromba e os compromissos publicitários, que permitem a sua sobrevivência monetária durante o resto do ano, do que o respeito por uma vida. A FAP não está, contudo, sozinha nesta estranha forma de ser e de agir. O reitor da Universidade do Porto, que se apressou a classificar a morte de Marlon como tendo sido de uma "violência injustificável", em nenhum momento sugeriu a suspensão ou sequer o adiamento da festa que arrancou menos de 24 horas após o homicídio do estudante.

A indiferença da FAP, maquilhada apenas aqui ou ali com manifestações de pesar por parte dos seus responsáveis, não terá surpreendido muita gente. A Federação Académica é um organismo que pouco diz à comunidade estudantil. Quem disso tiver dúvidas, pergunte aos alunos das instituições de Ensino Superior do Porto em que medida - à exceção das bebedeiras no queimódromo - se envolvem nas suas iniciativas. É que, apesar da sua aparente função social, a FAP é praticamente inexistente para os estudantes, que consideram que a existência da federação se reduz à exploração dos elevados dividendos da Queima das Fitas do Porto. E não estão longe da verdade. Um dinheiro cujo destino não é totalmente claro aos olhos da opinião pública. E esta não é a única nebulosa a envolver a FAP. Vejamos, a título de exemplo, o esquema de exploração das barracas de bebidas no queimódromo feito ao estilo mafioso. As associações que pretendam revender bebida só a podem comprar à FAP mesmo que no mercado ela possa ser adquirida por quase metade do preço. Não é só na ganância dos proveitos que a FAP tropeça. Há tempos, ficou conhecida a pretensão daquele organismo de garantir para si a cedência de direitos de imagem aos fotógrafos de jornais destacados para cobrir eventos que organizava. Uma violação inqualificável da lei que só uma cegueira de princípios parece justificar.

Tudo vem agora à memória pelas piores razões, mas é mais do que tempo de questionar a forma como tudo acontece nas iniciativas da Queima das Fitas organizadas por esta federação. A começar pela estranha preponderância da empresa de segurança que trabalha nos eventos que organiza. A mesma que ontem mandava calar responsáveis da FAP (que obedeciam!) quando falavam com os jornalistas no exterior do recinto da Queima e cujos seguranças impediram, de forma arbitrária, a entrada no espaço a profissionais credenciados para a cobertura do evento. Factos a que a FAP se mantém conscientemente alheia. E distante. Como convém a tudo o que pode prejudicar o negócio.