Opinião

Não há drama, há é haraquíri

Não há drama, há é haraquíri

Meio PS ouviu frustrado, mas sem grande surpresa, a entrevista de António Costa à TVI. Nela, o putativo ex--futuro candidato à liderança do principal partido da Oposição defendeu que "não há drama" se não houver convergência entre fações dentro do PS. Porque o importante mesmo, acrescenta Costa, é saber se "há vontade para haver entendimento" para lá, subentende-se, da assinatura da tal Base Comum de Orientação Estratégica. "Não há drama" porque, segundo o autarca de Lisboa, a riqueza socialista é saber encontrar "unidade dentro da diversidade". Tratando-se do PS, adivinha-se o que isto quer dizer. E se dúvidas existissem sobre o estado da união do partido, o atual presidente socialista da Câmara de Matosinhos desfê-las ontem mesmo. Ao anunciar a saída do PS após 37 anos de ligação ao partido para, assim, tentar a reeleição na mais importante autarquia da Área Metropolitana do Porto detida pelos socialistas, Guilherme Pinto verbalizou um grito de contestação. Um sinal de revolta dirigido a uma liderança incapaz de esconder o 'aparelhismo' tanto ou mais enraizado que o da anterior, de José Sócrates, cujo legado Seguro insiste em renegar. Talvez por isso Francisco Assis, que recebeu o apoio de Guilherme quando disputou a liderança do PS com Seguro e acabou derrotado por este, tenha defendido ontem, à margem da apresentação da candidatura apoiada pelo aparelho socialista a Matosinhos, que o atual autarca matosinhense merecia, pelo menos, uma palavra do secretário-geral do partido.

No entanto, Seguro prefere o silêncio a ter de reagir a estes sinais. Não comenta as declarações de Costa, mas fala (e fala e fala...) das pazes de Mário Soares com Manuel Alegre cuja paternidade reclama. Ficam, portanto, claras as prioridades do líder socialista...

A baralhada em que se encontra, outra vez, o PS tem uma explicação aparentemente simples. Básica, até. Ao chegar à liderança socialista num contexto de ciclo político formatado para quatro anos, tanto Seguro quanto a sua oposição interna - com destaque para os órfãos do 'socratismo' - ficaram atarantados com a erosão invulgarmente rápida do governo de Pedro Passos Coelho. Os segundos rapidamente perceberam que Seguro não era alternativa credível ao desastre laranja que, semana após semana, nos continua a surpreender pela inabilidade política.

Não é de estranhar que estudos de opinião publicados na Imprensa garantam a Costa uma preferência inequívoca relativamente a Seguro para líder socialista. Todavia, face a um aparente recuo de Costa, fica por saber como é que o aparelho que não obedece a Seguro e que, diz-se, responde muito mais a ordens vindas de Paris, vai preparar - ou mesmo armadilhar - as próximas autárquicas. É que, se uma parte do apparatchik socialista tem fé num desastre eleitoral social-democrata nas próximas eleições, setores há do PS que parece tudo fazerem para que a expectável vitória de Seguro no mesmo ato eleitoral não seja tão estrondosa. Uma espécie de haraquíri político cujo desfecho é imprevisível.

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