Opinião

Réplicas em Cuba da morte de Chávez

Réplicas em Cuba da morte de Chávez

Ainda mal os venezuelanos secavam as lágrimas pela morte de Hugo Chávez e já os partidários do defunto presidente e os seus opositores trocavam violentas acusações. No centro da polémica instalou-se a autoproclamação de Nicolás Maduro como sucessor do presidente venezuelano, uma suposta usurpação de poder que a oposição considera inconstitucional já que, sublinham os mais críticos, a cadeira de Chávez deveria ser ocupada no período de transição até às eleições pelo presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello.

Acontece que o testamento político de Chávez, levado até Caracas pela presidente argentina, Cristina Kirchner, afasta Cabello da linha de 'sucessão'.

O caso animará a habitualmente truculenta cena política daquele peculiar país sul-americano pelo menos até às eleições. Sufrágio esse que Maduro se apressou a convocar para o dia 14 de abril e no qual será o mais que certo candidato à vitória. Com mais ou menos despique verbal, adivinha-se que os venezuelanos venham a escolher Maduro como sucessor de Chávez, agora elevado à mais alta galeria dos heróis nacionais. O interesse quanto ao desfecho eleitoral de abril está longe, no entanto, de se circunscrever às imensas fronteiras do país de Simón Bolívar.

A mil e quinhentos quilómetros de Caracas há um lugar onde o futuro da Venezuela é acompanhado com particular atenção e compreensível receio: Cuba. Hugo Chávez foi, desde que chegou ao poder, o grande amigo do regime castrista, não o tendo sido apenas por afinidade ideológica com a vizinha ilha socialista das Caraíbas. Chávez foi, sobretudo, um inestimável contribuinte dos paupérrimos cofres públicos cubanos.

O regime de Raúl Castro (como antes o de Fidel) recebe de Caracas perto de 100 mil barris de petróleo a cada dia, pagos por Havana a preços consideravelmente abaixo do praticado no mercado internacional. Um diferencial acumulado em jeito de dívida que transforma a petrolífera estatal venezuelana na credora de qualquer coisa como oito mil milhões de dólares.

Esta ajuda ao regime cubano (e outras menos públicas) foi o balão de oxigénio que permitiu a Cuba compensar a quebra de remessas de dinheiro que Fidel Castro recebeu anos a fio com carimbo de Moscovo até ao colapso da União Soviética. A diferença é que, desde então, o frágil tecido industrial da ilha está ainda mais decrépito, a rede de transportes mais próxima da sucata e a produção agrícola atinge hoje níveis próximos da indigência. O país, outrora um pujante produtor agrícola, importa atualmente cerca de 80 por cento dos alimentos de que a sua população necessita para (sobre)viver.

Ainda que Cuba esteja hoje menos dependente de um só país do que no passado (China e Brasil vão dando sinais de aproximação), a verdade é que Havana está hoje mais impreparada para enfrentar uma suspensão maciça da ajuda externa porque o seu tecido económico está cada vez mais débil.

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Neste complexo labirinto de relações internacionais, não é só Havana que está encurralada. Caracas sabe que a suspensão, ou mesmo a desaceleração da ajuda financeira a Cuba, pode apressar as reformas com vista à adoção de uma economia de mercado que Raúl Castro tenta implantar timidamente desde que assumiu o poder. E esse afastamento do socialismo, mais do que isolar Caracas na região, não honraria o legado de fervoroso culto à revolução bolivariana de Chávez.

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