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Opinião

Bella Ciao e a casa de papel

Bella Ciao e a casa de papel

A Europa voltou a tremer por estes dias e uma das razões foi a aliança que levou ao governo de Itália a esdrúxula combinação entre o populismo 2.0 do Movimento Cinco Estrelas e o populismo xenófobo e protofascista da Liga (ex-Liga Norte), facto que não pode deixar de inquietar qualquer democrata e qualquer europeísta, como me assumo com gosto, num momento crucial da reforma da União Europeia. Itália, uma das maiores economias do mundo e desde sempre nuclear na construção europeia, é mais um inquietante sinal destes tempos pós-Brexit e pós-Trump, e merece certamente uma leitura atenta, e muito preocupada, de todos nós. E poderá até merecer um combate político empenhado.

Mas esta situação em Itália é também a demonstração que há muito boa gente, e com grandes responsabilidades, a quem a "vacina" do Brexit ainda não serviu de lição. A reação destemperada do comissário europeu do Orçamento, o alemão Oettinger, à crise italiana, como que dando uma "lição" aos italianos em quem deviam votar em próximas eleições, prova que não aprendeu nada com o resultado do referendo em Inglaterra, cujos resultados e cujo custo iremos todos pagar por muitos anos.

Cada vez que a Europa parece pender para esta ideia de um diretório dos poderosos, que dita as ordens aos submissos cidadãos de toda a União, são os populismos de todas as espécies e origens, dos descamisados do Sul aos ricos do Norte (e esta aliança italiana é, ela própria, o paradigma disso mesmo), que são opiparamente alimentados.

A verdade é que, com a atitude dos Oettinger desta vida, a Europa deixou de ser um elemento aglutinador de grande parte dos cidadãos europeus, com que tantos e tantos sonharam (e nós, portugueses, somos bem o exemplo disso...), e passou a ser um fator de divisão, onde os egoísmos de uns se sobrepõem à natureza solidária e integradora que motivou os seus fundadores. É tempo de se dizer com clareza: ou a Europa muda, e é nisso em que acredito e é por isso que nos devemos bater ativamente e com voz própria, ou a União Europeia não tem futuro. E, então, esta que acreditámos que podia ser a nossa casa comum transformar-se-á numa casa de papel, sujeita a todos os ventos e marés, facilmente derrubável.

Como democrata, como defensora de uma Europa solidária e das pessoas, isso é tudo o que não desejo.

*"Bella ciao" é uma canção popular italiana do século XIX que se tornou num "hino" da resistência ao fascismo (não apenas ao de Mussolini, mas um pouco por toda a Europa). Faz hoje parte da banda sonora da muito celebrada série "Casa de papel" (premonitoriamente?).

* SECRETÁRIA-GERAL-ADJUNTA DO PS

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