Opinião

Os croquetes e o financiamento dos partidos

Os croquetes e o financiamento dos partidos

Sei que, por vezes, pode soar a um mero lugar-comum dizer-se que não há democracia sem partidos políticos, mas a verdade é que nas últimas semanas temos assistido a pulsões populistas de diversa ordem que impõem que esse princípio seja lembrado, reafirmado e, sobretudo, praticado a cada dia que passa. Aquela velha máxima anarquista do "Há governo? Sou contra!" parece por estes dias transformada numa espécie de "Dinheiro para os partidos poderem exercer a sua atividade política? Sou contra!", mesmo que para isso seja preciso recorrer à verdade desvirtuada ou a criar segundas ou terceiras intenções ocultas para alimentar uma guerra que não faz sentido em democracia. Mesmo por parte daqueles que, dizendo-se contra, mantiveram recatado silêncio até que as manchetes despertassem esse seu instinto, alimentando as pulsões de que são feitos. Hoje por hoje há alguns políticos que fazem lembrar a velha anedota de Raul Solnado que estava muito preocupado por ter deixado um casaco num restaurante que era conhecido por aproveitar tudo para fazer croquetes... Hoje, há quem aproveite todas as notícias do dia - mesmo que não passem da velha espuma dos dias de que nos falava Boris Vian ou que possam inscrever-se na lógica muito atual das "fake news" - para nela centrarem a sua atividade política. Basta ter estado atento aos últimos debates quinzenais para saber do que escrevo. Os partidos políticos - como aliás muitas outras instituições na nossa sociedade, nos mais diversos setores - precisam de ter acesso a financiamento que lhes permitam manter a atividade que justifica a sua existência, este é um facto. Outro facto: é preciso é que esse financiamento seja feita às claras, seja transparente e seja passível de ser totalmente escrutinado pelas entidades competentes. São estes dois princípios que norteiam e continuarão a nortear a nossa posição nesta matéria. E que nunca estiveram em causa. Resistiremos - com a coragem que as circunstâncias exigirem - aos ataques aos partidos e, por essa via, à democracia, que verdadeiramente estão por trás de algumas pulsões populistas mediaticamente assistidas, que procuram alimentar alguns dos piores instintos humanos.

P.S.: Com a eleição de Rui Rio para a liderança do PSD, que aproveito para saudar, desejo sinceramente que se tenha posto termo à deriva radical e ao estado de zanga com o país que caracterizaram aquele partido nos últimos anos, quer no Governo, quer na Oposição. Espero que a partir da realização do seu Congresso, em fevereiro, o PSD volte a contar para o normal jogo democrático e para a construção de consensos de que o país carece, fazendo jus ao seu historial de grande partido português.

* SECRETÁRIA-GERAL-ADJUNTA DO PS

ver mais vídeos