Duas ou três coisas

A nossa melhor ideia

O Dia da Europa quase desapareceu na avalanche de emoções nacionais e, no entanto, as nossas vidas dependem desse lugar que parece longínquo, vagamente situado na brumosa Bruxelas e raro sentimos como nosso. Mas a Europa está onde estivermos e é o que quisermos que seja.

Aproxima-se decerto o mais importante ato eleitoral desde a sua constituição. Decide-se o próprio sentido da União Europeia: uma comunidade unida nos valores da democracia, empenhada em manter a paz e contribuir para o bem-estar dos cidadãos. Quando Robert Schuman, numa Europa devastada pela guerra, proferiu a célebre declaração de 9 de maio de 1950 propondo a criação do mercado comum do carvão e do aço, tinha como primeiro objetivo melhorar a vida das pessoas, mas também construir uma paz duradoura em que o fabrico de armas deixasse de ser a principal atividade de milhões de trabalhadores para sua própria destruição.

As palavras de Schuman ainda hoje ressoam: "A Europa não se fará de uma só vez, nem de acordo com um plano único. Far-se-á através de realizações concretas que criarão, antes do mais, uma solidariedade de facto". E ainda: "Uma comunidade forte será capaz de enfrentar os desafios do nosso tempo". Nessa altura e muito mais agora.

Tendemos a não ver o que está diante dos olhos e a perda de memória leva-nos a desbaratar em pouco tempo o que erguemos com muito esforço. Várias gerações de europeus viveram sem conhecer a guerra e beneficiaram de um bem-estar - ainda com muitas assimetrias - que nunca havíamos alcançado. Mas a Europa é, antes do mais, lugar de democracia e liberdade, lugar de livre circulação de pessoas, bens e serviços, mas também de ideias e conhecimento.

O que está em causa nas próximas eleições é o próprio projeto europeu. Alimenta-se o medo para acenar com um salvífico regresso ao passado de fechamento e conflito.

Num livro cheio de humor, Umberto Eco explica como se constroem os inimigos e de que modo servem para reforçar identidades nacionais e medir forças. O exemplo americano não pode ser mais evidente: os inimigos vão-se multiplicando e os conflitos servem a grandeza da nação. O Conselho Europeu reunido na Roménia, pela primeira vez sem o RU, definiu 10 compromissos estratégicos para um futuro comum. Vale a pena conhecer, porque saberemos as razões por que importa lutar pelo projeto europeu neste momento de muitas seduções. A Europa continua a ser a nossa melhor ideia.

* Professora Universitária