Opinião

Cuidar o futuro

Há 40 anos, tivemos pela primeira e única vez uma mulher como primeira-ministra. O Governo de iniciativa do presidente Ramalho Eanes deveria apenas gerir o país até às eleições, mas Maria de Lourdes Pintasilgo (MLP) fez a diferença e, naqueles 150 dias, trouxe propostas arrojadas e precursoras, numa ação visionária por muitos considerada mera utopia.

Como é frequente, MLP foi mais reconhecida fora do seu país, como demonstram os cargos que exerceu e, sobretudo, o legado que deixa de relatórios internacionais por ela coordenados, que são ainda hoje documentos orientadores de pensamento e ação. No início da década de 90, integra o grupo de peritos da OCDE sobre a mudança estrutural e o emprego das mulheres, mostrando como a conciliação entre trabalho e família protagonizada pelas mulheres representa um importante indicador económico e configura um modelo em que terá de assentar a democracia paritária.

Em 1992, recebe o convite para presidir, no âmbito das Nações Unidas, à Comissão Independente sobre População e Qualidade de Vida, cujo relatório final tem como título "Cuidar o futuro", dando voz à sua preocupação de justiça entre gerações. São muitos os seus contributos de pensamento nessa década animada pela queda do Muro de Berlim e o fim do Mundo bipolar. Nunca deixou de pensar mais à frente. Nesse tempo de esperança, recordo intervenções suas em que desenhava o Mundo multipolar e, sobretudo, o possível regresso da barbárie. O progresso não era uma linha infinita. Com uma clarividência terrível, dava o exemplo do Médio Oriente e não isentava a Europa.

O seu pensamento começa agora a ser resgatado através de trabalhos académicos, como a tese de Doutoramento em Filosofia de Marília Rosado Carrilho, convertida em livro, em que explora os diálogos de MLP com Martin Heidegger e o seu discípulo Hans Jonas. Quem a conhecia, sabe a importância que atribuía à filosofia, estruturante de um pensamento crítico como alicerce da ação. Aos dois filósofos vai buscar os princípios do cuidado e da responsabilidade como bases da sua proposta de uma ética global. Não se ficava pelas ideias e apontava caminhos: as pessoas e a qualidade de vida sustentável deviam estar no centro da decisão política. Antes do tempo em que melhor o entendemos.

Num Mundo de incertezas, faz falta quem pense e nos traga a luz da sua utopia positiva, em que pensar o possível servia para engendrar o futuro.

* PROFESSORA UNIVERSITÁRIA