Duas ou três coisas

Dias assim

Com a primavera floresce a vontade de reinício e até um bom humor que vem do sol. Os portugueses ficam cinzentos quando os dias ensopam e renascem como flores em dias azuis. Por isso, vamos lá a boas notícias. E nem foi preciso consultar as redes de notícias positivas, criadas para contrariar a tendência sombria que nos invade.

Esta semana foi apresentada a Agência Portuguesa Espacial, com a presença da sua presidente, Chiara Manfletti, escolhida por concurso internacional. Há 50 anos, quando o homem poisou na Lua, não sabíamos as vantagens da ciência espacial e talvez a maioria não conheça ainda a importância e o alcance deste investimento, que não se limita aos telemóveis e redes sem fios. Os benefícios estendem-se da navegação (terra, ar, mar) à segurança, da prevenção de catástrofes ao controlo de incêndios e inundações, à busca e salvamento de pessoas. Pequena amostra das muitas aplicações. A Agência Espacial Europeia (AEE), criada em 1975, teve importante impulso em 2002 com o Tratado de Lisboa que, pela primeira vez, estabelece uma política espacial europeia, incluindo a navegação e o posicionamento de satélites. Contudo, o programa Galileu, criado para esse fim, sofreu vários atrasos porque se discutiu a sua utilidade tendo em conta a existência do congénere americano que poderia servir a Europa. Hoje, não temos dúvidas sobre a importância de a Europa ser autónoma. Mais um assunto que não está resolvido na saída do Reino Unido. Portugal lançou o primeiro satélite há 25 anos, o célebre Infante, como o mentor das navegações, e tem prosseguido um trabalho persistente de participação nos programas da AEE. A criação da agência nacional é mais um desafio que aproveita a nossa geografia e, por isso, a sede será nos Açores e aí se prevê construir uma base de lançamento e construção de pequenos satélites. Um olhar para o futuro.

Boa notícia é também a solidariedade com os países afetados pelo ciclone Idai e até alguns heróis improváveis, como aqueles 40 homens que impediram 26 mil crocodilos de andar à solta na Beira ou a mulher de 70 anos que andou mais de 15 km para levar alimentos às vítimas em Harare. Notícias que nos devolvem o sentido da humanidade.

E sabe-se lá se a baralhação do Reino Unido não se transforma em notícia positiva e percebemos que a Europa, com os seus defeitos, é uma boa invenção que importa preservar. Há dias em que preferimos a versão luminosa.

Professora Universitária