Opinião

Em louvor da nossa linguagem

Em louvor da nossa linguagem

Hoje é o Dia da Língua Portuguesa e por todo o Mundo há comemorações que celebram a língua e as culturas que lhe estão associadas. Teremos consciência do valor de uma língua? E do valor da nossa língua?

As línguas são também formas de poder que se mede por indicadores precisos como a demografia, os recursos naturais (como as reservas de água ou as plataformas marítimas), a presença na sociedade digital, a produção científica. Talvez um dos principais indicadores para definir uma língua global seja a sua presença em vários continentes e a capacidade de atrair outros falantes para a sua aprendizagem.

A China compreendeu muito cedo o valor da língua e da cultura, como provam as centenas de institutos Confúcio criados desde 2004, o que coincide com a aceleração da política de influência do Estado. Mas também entendeu a importância do português e fez de Macau uma plataforma de relacionamento com os países da CPLP. Em 2002, o ensino do português na China confinava-se a quatro ou cinco universidades e hoje são mais de 40. A China está sobretudo interessada em África e sabe que o português tenderá a crescer naquele continente e suplantar o Brasil, como revelam as demografias da língua. Não podemos esquecer que o poder de uma língua está também no número de potenciais consumidores e na capacidade de mover as economias.

O português já havia sido língua franca dos mercadores e por isso deixou traços noutras línguas. Em quinhentos houve também consciência de que a língua era companheira do império: enquanto a Europa escolhia entre adotar o latim ou as línguas comuns faladas por todos, os primeiros gramáticos portugueses defendiam que, em vez de padrões, o português e os costumes eram as únicas pedras que poderiam ser deixadas nas terras conquistadas.

O português é hoje uma língua global porque os países fizeram essa escolha no momento das suas independências, também como forma de unidade nacional. O português está nos sistemas de ensino e convive com as línguas maternas que são parte das identidades e constroem a diversidade de que tanto precisamos como humanidade. Mas o português só poderá ser útil aos seus falantes se ganhar peso na economia, na ciência e na inovação. E já agora na cultura e no desenvolvimento da criatividade, como competência essencial para o século XXI. Parece impossível, mas aqui estão vários domínios em que políticas públicas conjugadas podem fazer a diferença.

*PROFESSORA UNIVERSITÁRIA