Duas ou três coisas

No pasa nada

O poeta venezuelano Rafael Cadenas, vencedor em 2018 do Prémio Rainha Sofia de Poesia, considera a democracia algo espiritual que transcende a política.

Tendo pertencido à juventude comunista e vivido longo exílio, é hoje um opositor ao regime, afirmando que os protestos nas ruas nada têm que ver com política, mas com sobrevivência. O último livro publicado em Espanha não poderia ser vendido na Venezuela, porque custa mais do que o seu salário como professor universitário, cerca de 5 dólares.

Quase todos os países da América Latina se caracterizam por grandes desigualdades que explicam a violência e a corrupção. Duzentos anos após as independências, subsistem democracias frágeis que tendem a ser aproveitadas por autoritarismos de sinais contrários. A chegada de Chávez ao poder trouxe uma diminuição das desigualdades e da pobreza, com maior investimento em educação e saúde. Mas o modelo não foi sustentado em crescimento económico e a galinha dos ovos de ouro, a empresa petrolífera, foi tomada de assalto sem garantir o futuro. Como é possível que o país com maiores reservas de petróleo esteja no atual estado de carência? Há decerto várias explicações, mas a política serve para encontrar soluções.

A crise tornou-se insustentável com o agravamento da situação económica (hiperinflação, endividamento galopante, falta de abastecimentos), o que provocou o drama humanitário que conhecemos. Mais de 3 milhões de venezuelanos deixaram o país rumo à incerteza com imensa pressão nos países limítrofes.

Depois das eleições presidenciais, a Venezuela parecia condenada a prosseguir este rumo abissal, com a comunidade internacional dividida entre os que não reconheceram os resultados, como a União Europeia e grande parte dos países da região, e os eternos apoiantes.

Guaidó foi a inesperada pedra no charco avançando para uma solução preconizada por Ricardo Hausmann, ex-ministro venezuelano (1992-1993) e professor na Universidade de Harvard, que apontara a legitimidade da Assembleia Nacional para depor o presidente e formar um governo transitório.

Olhamos para a Venezuela como um drama próximo porque ali vive uma larga comunidade portuguesa que partiu num tempo negro, em busca de melhores condições de vida e regressa desesperada e sem chão, à procura de um abrigo que lhes permita recomeçar. Muitos querem voltar ao seu outro país, se a esperança for devolvida e alguma coisa mudar.

* Professora Universitária