Opinião

O princípio da incerteza

O princípio da incerteza

Temos vivido suspensos das imagens que chegam de Moçambique, com a destruição de quase 90% da bela cidade da Beira e uma generalizada catástrofe em toda a província de Sofala, quase três centenas de mortos que podem continuar a aumentar.

O drama toca-nos de perto porque muitos temos alguma ligação ao país e por ali vive grande número de portugueses, estando desaparecidos ainda mais de uma dezena. A tragédia estende-se ao Zimbabué e ao Malawi com quase seis centenas de mortos até ao momento. O ciclone Idai já foi comparado ao Katrina que destruiu Nova Orleães e provocou quase dois mil mortos. Muitos chamam a estes ciclones tropicais a fúria da natureza e, de facto, tem vindo a provar-se que o aquecimento global contribui para que estes fenómenos sejam cada vez mais frequentes e intensos.

Os alertas sobre o planeta chegam por todos os meios, mas vamos assobiando para o lado. Enquanto olhamos as imagens das inundações, vivemos por aqui um ano anormalmente seco e quente com consequências na agricultura. Nós, os urbanos, sentimos uma leve preocupação que se dissipa com as prateleiras dos supermercados cheias, seja qual for a origem do que consumimos. Como disse esta semana o ministro do Ambiente, o planeta pouco se importa para o que andamos a fazer e será capaz de se adaptar às mudanças. O mesmo não acontecerá com os humanos que sentirão cada vez mais esses efeitos. Os mais afetados continuarão a ser os mais pobres, não só porque vivem em regiões vulneráveis como têm menos condições para resistir como vemos nas imagens que chegam de Moçambique. Essa também uma causa das migrações que tenderá a crescer. Quando tudo se perde, procura-se outro lugar que construa alguma esperança.

As greves estudantis pelo combate às alterações climáticas, inspiradas pelo movimento da jovem sueca Greta Thunberg, têm sido uma boa surpresa. Convidada para o Fórum Económico Mundial de Davos, onde reuniram as grandes potências e Trump esteve ausente, fez a declaração que se tornou viral: "Há quem diga que devia estar na escola: mas porque é que me hei de preparar para um futuro que pode não existir?". Os senhores do Mundo deram-lhe palco, como se não soubessem o que está a dizer, mas o jogo de interesses é mais forte. Há 50 anos a minha mãe perguntava-me o que era a poluição, hoje todos sabemos. O princípio da incerteza vai crescendo e empurramos o desastre para aqueles que dizemos amar.

*PROFESSORA UNIVERSITÁRIA

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