Opinião

Páscoa

O incêndio da Notre-Dame atravessou este tempo de recolhimento e celebração, e não poucos interpretaram a tragédia como aviso e metáfora do destino europeu. Diante das chamas, os franceses cantaram e todos nós com eles, porque de esperança se faz a Páscoa, na crença da ressurreição depois da morte.

George Duby, autor da famosa obra "O tempo das catedrais", mostra que a catedral significou, antes do mais, o renascimento das cidades como centro económico e de conhecimento, habitadas por homens livres que fizeram do comércio a principal riqueza. A Catedral de Nossa Senhora de Paris constrói-se nesse tempo de fulgor e esperança, com a sua arrojada arquitetura de arcobotantes, que é sobretudo um esplendor da capacidade humana.

Enquanto o incêndio durava, tudo indicando ter sido um curto-circuito, outros incendiários ateavam fogos nas redes sociais, tentando culpar muçulmanos (foi mesmo anunciada a prisão de um homem) e dando a entender que se tratou de ataque contra a civilização ocidental. A colunista britânica Katie Hopkins, conhecida pelas posições xenófobas, escreveu no dia do incêndio que judeus e cristãos parisienses estavam a ser expulsos da sua cidade por islâmicos e fugiam aos milhares. Outros a seguiram nesta tentativa de criar o pânico através de falsas notícias que procuravam culpar a tolerância francesa do desastre anticristão.

Nada mais eficaz do que aproveitar fragilidades e medo. Do outro lado, foi também criticado o elevado montante de donativos, que escasseiam para apoiar os que vivem em condições infra-humanas. Confundir as duas coisas tem o mesmo efeito populista e serve a discussão, mas baralha a solução. O presidente Macron esteve bem quando anunciou que a catedral seria reconstruída em cinco anos, a tempo dos Jogos Olímpicos de 2024. O discurso foi mobilizador - "Acredito profundamente que podemos transformar esta catástrofe numa oportunidade de unificação, refletindo sobre aquilo que já fomos e no que podemos ser, numa versão melhor de nós mesmos" - e a sua popularidade subiu.

Nesta Páscoa de todos nós, o Mundo continua suspenso de guerras entre três religiões que encontram em Abraão a sua tradição espiritual. Irmãos desavindos que se odeiam e tardam em reconhecer as comuns origens para vincar as diferenças até à morte. A Europa tem conseguido afirmar-se como lugar de liberdade e diversidade. Nestes tempos sombrios, que a esperança nunca desista.

*Professora universitária