Opinião

Por fim

Neste dia de eleições em que só podemos falar das eleições à beira da noite, soa ainda a boa notícia da atribuição do Prémio Camões a Chico Buarque. O júri foi unânime, mas as declarações revelaram cambiantes, com alguns a sublinharem que a distinção reconhecia a qualidade do escritor consagrado e evitando qualquer polémica como as que se multiplicaram com a nomeação do músico Bob Dylan para o Nobel da Literatura. Outros membros do júri, como a angolana Ana Paula Tavares, referiram que se trata de um prémio da língua portuguesa e, como bem sabemos, Chico Buarque tem sido seu extraordinário mensageiro urbi et orbi. Chico Buarque é um escritor aclamado pela ficção e pela poesia que junta à música. Qual a dúvida? A literatura portuguesa começou com as cantigas de amigo e de amor, de que sobreviveram poucas notas musicais, mas ficaram esses textos que inventaram uma língua e construíram imagens que recriamos.

Deixem-me confessar outro motivo de satisfação que não vem ao caso, mas é um belo caso de homenagem a quem tanto lutou contra a ditadura e tem permanecido como consciência crítica do Mundo que o rodeia. Chico é aquele que celebrou connosco a democracia portuguesa - "Sei que estás em festa, pá" - e deu voz aos que a não tinham, como o operário que morreu na contramão ou Geni, a namorada dos errantes, dos cegos, dos retirantes. Num momento em que se anuncia a redução em 30% dos orçamentos das universidades federais brasileiras, a atribuição deste prémio tem um valor acrescido porque serve para dizer a importância da palavra livre e de uma cidadania por inteiro. Que só a educação nos pode trazer e consolidar!

Chegada do Caxito, em Angola, onde participei em encontro sobre as universidades e o serviço à comunidade, foi bom ver como o caminho se vai fazendo. Salas cheias de estudantes que ouvem os debates, colocam questões. Dizem o que querem e o que esperam. São críticos. Reclamam meios. Acreditam que o país precisa de educação e mudança. Falam em cidadania. Uma esperança.

Há um ano a Direção do JN convidou-me para escrever estes artigos de opinião, o que me obrigou a uma atenção acrescida ao debulhar dos acontecimentos. Cruzei leituras, reflexões, perplexidades. Aprendi a conter o pensamento em 2400 carateres e nesse espaço encontrar a minha própria linha de coerência. Afinal é isso a opinião. Mas o maior desafio sempre foi ouvir no silêncio as vozes dos outros.

* PROFESSORA UNIVERSITÁRIA