Duas ou três coisas

Sei que estás em festa, pá

Sei que estás em festa, pá

Talvez o que melhor carateriza a revolução portuguesa é o seu inédito caráter pacífico e de festa popular. Podia ter sido diferente e quanto mais sabemos sobre esse dia e a queda do regime, mais nos surpreendemos por ter sido evitado o banho de sangue que costuma caraterizar estas mudanças forçadas. Devemos aos militares que assim tenha sido e bastaria um tiro inadvertido para que tudo tivesse sido diferente.

Do lado de lá do Atlântico, há 10 anos que durava uma ditadura militar que só terminou em 1985, aquela que hoje o presidente do Brasil diz não ter existido. O Congresso Nacional foi dissolvido, as liberdades civis suprimidas, os meios de comunicação censurados, o Exército e a Polícia Militar podiam encarcerar suspeitos sem culpa formada. Os ricos foram ficando mais ricos e os pobres mais pobres. A economia ficou de tal forma descontrolada que se tornou inevitável a mudança.

Em 1974, muitos dos protagonistas do anterior regime foram para o Brasil e Portugal serviu de porto seguro aos que eram perseguidos do lado de lá. Histórias repetidas. Continuamos próximos nas bordas do Atlântico.

A canção de Chico Buarque em que celebra a democracia portuguesa foi vetada pela censura e só pôde ser editada em Portugal: "Sei que estás em festa, pá/ Fico contente/ E enquanto estou ausente/ Guarda um cravo para mim".

Os cravos vermelhos colocados nas espingardas tornaram-se símbolo desta revolução pacífica que comemorou 45 anos. Como tem sido repetido, a democracia é imperfeita e traiu tantas expectativas como alcançou outras. Mas importa valorizar o que conseguimos e foi muito. Talvez o mais importante seja a educação: em 1974, quase 50% dos jovens até aos 14 anos não tinham frequentado o Ensino Primário, os que chegavam ao Ensino Secundário eram escassos e entrar na universidade considerado um luxo de classe.

Um país orgulhosamente só que temia o desenvolvimento e fechava as fronteiras físicas, mas também as do conhecimento. Como se o tempo pudesse parar.

Por isso a memória é tão importante. Não apenas a festa que foi o 25 de Abril, mas o sofrimento e a resistência que o tornaram possível. O Forte de Peniche foi transformado em prisão em 1934 para acolher revoltosos da Marinha Grande. Só 40 anos depois as portas das prisões se abriram aos presos políticos. O Museu agora criado em Peniche não será um lugar estático da memória, mas sobretudo a construção futura do valor da liberdade.