Opinião

Teorias da conspiração

Teorias da conspiração

O efeito de choque da ida de Joe Berardo ao Parlamento ainda se faz sentir e a semana arrastou-se entre comentários e comentaristas em torno do episódio do comendador.

O Conselho das Ordens Honoríficas abriu processo disciplinar que pode tirar-lhe a Ordem do Infante D. Henrique. A lei prevê que as condecorações sejam retiradas em caso de condenação a mais de 3 anos de prisão efetiva e, nos últimos tempos, vai engrossando a lista dos que já perderam e dos que podem perder o reconhecimento pelos feitos à nação. Como também foi sobejamente discutido, o que se tornou mais ofensivo foi o sorriso do senhor Joe, a sobranceira ingenuidade perante os deputados, ao contrário de outras atuações mais artísticas que souberam comportar-se nada dizendo.

Os degradantes episódios que temos assistido em direto pouco se distinguem da ficção e, de facto, até a ultrapassam porque o enredo não parece conduzir a nenhum final, mas a uma espécie de história interminável. Aristóteles já tinha ensinado que a ficção é apenas imitação da realidade, porque aquilo que ultrapassa a imaginação é a história dos nossos quotidianos. A nota de salvaguarda "qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência" mais não é do que um sussurro ao nosso ouvido para refletirmos sobre as coincidências.

A série televisiva "Teorias da conspiração", quase a chegar ao fim, nem se esforça por se apresentar como ficção que mistura nas doses certas para encadear a história. O pano de fundo confunde-se com as notícias que nos invadem sobre promiscuidade entre políticos e banqueiros, esquemas de corrupção e donos disto tudo que sempre se consideraram impunes. Aliás, o principal autor do argumento é um jornalista, Paulo Pena, que integra um consórcio europeu de jornalismo de investigação. Como dizem na apresentação do projeto, funcionam como multinacional de informação, o que permite obter o que cada um não conseguiria. Têm vindo a investigar as redes da extrema-direita europeia e utilização de falsas notícias para convencer os eleitores de que o problema está na democracia. Não nos enganemos: menos democracia, menos transparência, mais corrupção. Não tomemos a árvore pela floresta. Hoje é possível denunciar a corrupção e revelar os seus agentes. Já lá vai o tempo em que os jornais eram encerrados ou os jornalistas despedidos por revelarem o que se queria esconder. Não podemos regressar ao silêncio dos inocentes.

Professora universitária