Opinião

O guardador da ilha do tesouro

O guardador da ilha do tesouro

Entre os livros da minha infância, alinha-se a série das Aventuras dos Cinco, da inglesa Enid Blyton. Um deles, "Os Cinco na Ilha do Tesouro", veio-me à memória quando fui pela primeira vez a Porto Covo e avistei aquele lugar onde um vizir de Odemira plantou um pessegueiro, como diz Carlos Tê. A ideia de uma ilha misteriosa que esconde um tesouro foi criada por Robert Louis Stevenson num livro que hoje é um clássico, muito antes de Enid Blyton vir a povoá-la com dois rapazes, duas raparigas e um cão. O tema foi declinado repetidas vezes na literatura, no cinema, na televisão, na banda desenhada. Faz parte do nosso imaginário.

No Pessegueiro, nas Berlengas, na Selvagens, nas Desertas, em qualquer destas ilhas poderíamos romancear um tesouro guardado por piratas em tempos remotos.

Descobri onde está a ilha do tesouro. Fica perto das Selvagens e das Desertas, mas não é despovoada como na memória das minhas leituras. O tesouro não está escondido, está descaradamente à vista de todos e, em vez de ser uma velha arca de madeira e dobradiças enferrujadas, é mais parecida com um poço sem fundo.

O tesouro tem o estranho nome de orçamento, é guardado por um senhor que gosta de desfilar despido no Carnaval, de dizer frases bombásticas e tratar mal jornalistas. O guardador do tesouro não tem perna de pau, ganchos em vez de mãos, nem tapa um olho com uma pala. Não é, à vista desarmada, um pirata como deve ser.

Há muitos anos, dos 33 que ele leva como guardador da ilha, oiço e leio histórias sobre o esvaziamento do tesouro e a bizarra noção de democracia do "senhor governo". Histórias que todos conhecem e que têm sido varridas para debaixo dos tapetes.

Que foi eleito, reeleito, trieleito e por aí fora, dizem-me. Que fez auto-estradas e deu emprego a muita gente. Que tem uma ideia estratégica, um faro político, que compreende o povo. Nunca percebi. Sei que disse várias vezes que não se candidatava mais.

Voltou a aparecer em público com insistência nos últimos dias. A fazer inaugurações na ilha vizinha, onde anda a banhos em vésperas de eleições. A espalhar culpas pela Maçonaria, a Internacional Socialista e afins, como sempre fez com o universo de terríveis inimigos apelidados de cubanos ou comunistas. A aceitar discutir as dívidas, mas só depois de 9 de Outubro - quer dizer, após as eleições. Voltou a concorrer, claro, sem parar de esbracejar.

Ontem, o ministro das Finanças contou que o presidente da Região Autónoma da Madeira enviou uma carta a pedir um programa de ajustamento estrutural e de estabilização financeira. Não gritou desta vez, escreveu.

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