Opinião

Rosas contra o medo

Nos funerais, falou-se da "geração de 22 de Julho", que promete continuar a reunir-se em Utoya todos os anos, para que a tragédia seja um separar de águas, o início de algo duradouro e importante

O funeral simultaneamente cristão e muçulmano de Bona Rashid foi mais um dos momentos exemplares da semana em que a Noruega ocupou as nossas vidas. Os dezoito anos de Bona terminaram no dia 22 de Julho, e tudo o que possamos dizer sobre ela e os outros 76 mortos de Oslo e da ilha de Utoya é pouco perante a grandeza do que deles recebemos.

Da Noruega sabíamos dos fiordes, do sol da meia-noite, da Lapónia com o Pai Natal e as renas voadoras. Sabíamos que era o país do Prémio Nobel da Paz, o tributo deixado ao Mundo pelo homem que inventou a dinamite.

Logo na primeira reacção do primeiro-ministro Jens Stoltenberg ficou claro que a ideia de democracia tem ali raízes fundas e concretas, quando pôs de lado palavras de medo e violência e respondeu com a garantia de uma maior abertura. O tom foi ainda o mesmo, ontem, quando falou no funeral em Oslo, ao vincar que o massacre a sangue--frio foi um ataque à democracia, e que a celebração da memória das vítimas virá de mão dada com a fidelidade aos valores e ideais da democracia.

No meio do horror e do sofrimento, nada foi deixado ao acaso. A escolha de iniciar as cerimónias fúnebres com Bona Rashid, a jovem de origem curdo--iraquiana que vivia desde 1996 na Noruega, é mais um sinal, tal como as rosas que preencheram o vazio do luto.

E disso mesmo beneficia Anders Breivik, na novíssima prisão concebida à maneira nórdica - sólida, limpa e austera - onde aguarda julgamento por mais sete semanas.

Nos funerais, falou-se da "geração de 22 de Julho", que promete continuar a reunir-se em Utoya todos os anos, para que a tragédia seja um separar de águas, o início de algo duradouro e importante. Foi esta a declaração de um dos sobreviventes do massacre de Utoya, um jovem dirigente da juventude trabalhista que organizou o encontro de Verão.

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Ninguem falou de vingança, ninguém falou de perdão. O que foi prometido foi que o crime será punido mas que a justiça não pode ser cilindrada pelo medo.

O mal combate-se com mais mal? Olho por olho, dente por dente? A Noruega optou.

Há sempre um português em qualquer história, e também na Noruega temos o nosso homem. Um poeta, ainda por cima: José Gomes Ferreira, o escritor que nasceu com o século XX, foi cônsul na terra dos fiordes no final dos anos 1920.

Podemos ir com ele até a esse país longínquo de que nos aproximámos nestes dias. "Tempo Escandinavo" é o livro de contos que nos traz ternamente a juventude. É sempre bom ir buscar à estante um livro que nos fez bem.

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