Opinião

Agustina, agitadora

O centenário do nascimento de Agustina Bessa-Luís é, por estes dias, o acontecimento que marca culturalmente o país, especialmente, o seu território de vida e criação por eleição - o Norte. (Foi ela mesma quem disse: "ninguém é mais do Norte do que eu!") Amarante, cidade-berço da escritora, foi o pórtico de uma celebração que promete agitar o seu desconcertante legado e que se estende a vários territórios e além-fronteiras.

A revisitação da obra de Agustina e a sua releitura hoje - realizada em modos diversos, como por exemplo no inesperado mural artístico de rua que passou a definir o perímetro da sede da CCDR-Norte, ao Campo Alegre, no Porto - valem por si mesmas, como ato de agitação de uma consciência cultural e humana, cívica e política. "Eu não dou sossego a quem me ouve", disse.

Também por isto (ou sobretudo por isto) é bem-vindo este centenário, mas não só. Reafirma ainda a vocação do Norte como grande região europeia cultural, criativa e inovadora. Interpretando profundamente um território e as suas identidades e transformações, a sua obra inscreveu-se na universalidade intemporal da criação artística e do pensamento. A relação produtiva de Agustina e Manoel de Oliveira, cruzando os campos das letras e do cinema, é disso ainda exemplo eloquente.

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O Norte quer ser essa região criativa e cultural - e a agitação movida por este centenário, à força da vontade das suas instituições promotoras e do talento de muitos criadores, é um tónico nessa visão e projeto, consagrados na estratégia Norte 2030. A região e a CCDR-Norte reclamam maior autonomia de decisão apenas por uma razão: ser consequente com essa estratégia e ambição.

Sendo inteira e intrinsecamente português, o Norte é diferente e deve assumir uma estratégia própria, à sua medida, incluindo no território da cultura.

A expressão do presidente da República, no dia do arranque deste centenário, quanto à oportunidade e importância de reforçar os poderes dessa autonomia, converge nesta linha de pensamento.

Nem de propósito, foi Agustina quem escreveu sobre a "alma dos lugares": "Toda a gente pensa que Portugal inteiro é a mesma coisa. Que não há diferenças. Mas há, e muitas. Até o falar é diferente de lugar para lugar. Até o sol aquece menos num ponto da terra que noutro, e a água tem variados sabores nas levadas do Marão e na serra do Gerês. (...) A alma dos lugares não é superficial, é única e distante".

*Presidente da CCDR-N

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