Opinião

Fazer justiça

Incêndios de dimensões exuberantes engolem por estes dias as atenções do país e confirmam a perceção de poderes e cidadãos de que a emergência climática e ambiental é uma realidade incontornável do nosso quotidiano, a exigir estratégia e ação coletivas.

Voltarei ao tema, mas para já quero assinalar que há neste verão outros factos a merecer atenção, por razões mais esperançosas.

Um desses factos é a conclusão, há dias, da operação da remoção de 290 mil toneladas - leu bem: 290 mil toneladas! - de resíduos perigosos nas antigas minas de São Pedro da Cova, em Gondomar. Estiveram ali depositados durante 20 anos, constituindo uma ameaça silenciosa. Foi feita justiça à comunidade local e aos seus representantes, que sempre lutaram por este desfecho. Foi feita justiça a uma ambição de futuro daquele lugar, mas também da região e do país.

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Tive a responsabilidade, enquanto presidente da CCDR-Norte, de ter um papel nesta que foi a maior operação de sempre na recuperação de um passivo ambiental no Norte e, seguramente, uma das maiores na história nacional. Mas o mérito da iniciativa antecede-me e pulveriza-se em vários atores. É oportuno fazer justiça à coragem do antigo presidente Carlos Lage, quando em 2010 determinou a realização do estudo independente aos "inertes" provenientes da Siderurgia Nacional, o sentido de compromisso do antigo ministro Matos Fernandes e a dedicação da equipa da CCDR-Norte, liderada pela vice-presidente Célia Ramos, na procura de todas as soluções e meios para que esta operação tivesse o seu termo, depositando-se no lugar certo, devidamente licenciado, aqueles resíduos.

Só um compromisso e uma atuação regionais - integrando vontades e competências - poderão lograr no futuro resultados como este, com menor ansiedade e em menos tempo. Só assim se garantirá uma gestão sustentável da água, solos e florestas e dos seus riscos, a partir de estratégias regionais que os municípios integrem e as populações conheçam.

Por isso, deve ser promissora a determinação do primeiro-ministro de ver adotada uma organização regional do Estado em Portugal. Um Estado que se foi sumindo dos territórios e amontoando-se, absurdamente, na sua capital. Um Estado que não dialoga consigo mesmo e que, desconhecendo as diferentes realidades do país, as uniformiza artificialmente falhando respostas à medida dos problemas.

Dar passos neste sentido, e não ignorar o problema, é fazer justiça ao "país real" e ao nosso futuro.

*Presidente da CCDR-N

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