Opinião

Leituras de "rentrée"

Leituras de "rentrée"

É comum recomendarem-se livros para leitura nas férias estivais - tão comum quanto a frustração das expectativas que lhes sucede. Prefiro, por isso, recomendar leituras para a "rentrée", e apenas duas. Leituras instrutivas pela sua atualidade e pelo que dizem do país que somos, herdamos e temos.

As obras estão em fase de lançamento e são assinadas por autores especialmente habilitados, isto é, que combinam um conhecimento rigoroso das realidades que tratam a uma sabedoria maturada, feita de saberes diversos e experiência prática.

A primeira é da autoria de Luís Braga da Cruz. É hoje apresentada publicamente na CCDR-Norte, da qual foi presidente durante cerca de uma década. Em "Crónicas sobre o Douro... e outros temas", Braga da Cruz oferece um lúcido retrato sobre a evolução do país nos últimos 40 anos, em múltiplas dimensões (onde cabem "políticas públicas", Europa, educação, cultura, inovação ou acessibilidades), e do Norte e do Douro em particular. É um retrato em modo de testemunho de quem se dedicou a estudar, a fazer e a participar da vida pública. Que lhe conhece (e aponta) os motivos de orgulho, mas também os seus rotundos falhanços. A sua leitura só pode ser uma lição muito útil, tal como o assertivo e enriquecedor prefácio de Miguel Cadilhe.

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Frequentemente, a obra esbarra no fracasso do modelo de desenvolvimento nacional: o do "centralismo português". Cadilhe é perentório ao recordar que "Portugal está em posições extremas de centralismo comparado [na Europa], no que toca ao nível regional do continente, percorrendo as suas razões: "a hipercentralização do Estado", "a falácia do país pequeno", "a hipogovernação regional" e "a brecha entre governações municipal e regional". A páginas tantas, Braga da Cruz explica as suas consequências, com um bom exemplo: "os países mais bem organizados avançaram mais depressa do que nós e assim se acentuou o distanciamento entre uns e outros, que é o que tem acontecido. A minha convicção vale-se do exemplo da Galiza, cujos indicadores não eram muito superiores aos do Norte de Portugal (em meados da década de 80) e cujos desvios, entretanto, nunca cessaram de se acentuar. O sucesso galego não aconteceu pelo efeito de arrastamento de Espanha, como um todo. Pelo contrário, a Espanha é que beneficiou, sobretudo na década de 90, da afirmação autónoma de cada uma das suas regiões". Eloquente q.b.!

A segunda leitura remete-me, precisamente, para "Galiza - Terra irmã de Portugal", de Ramón Villares. Tema para um próximo artigo.

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