Opinião

O bom exemplo

Por falta de visão ou desajustamento das políticas às realidades, fomos durante décadas perdulários em relação aos nossos territórios demograficamente mais rarefeitos, normalmente designados como do interior ou de baixa densidade.

Não valorizámos, na conta certa, as suas paisagens, a ruralidade, as tradições culturais, patrimónios distintivos que vão do natural ao construído e todo um conjunto de saberes e sabores que medeiam entre a terra e a boa mesa. A fotografia contrastada que hoje temos do país - com assimetrias profundas de povoamento, desenvolvimento e atividade - não aconteceu por acaso.

A boa notícia é que essa realidade (e essa fotografia) está a mudar. A pandemia produziu uma alteração de perceções e interesses, acelerando um certo "regresso às origens" do mercado turístico. No entanto, a verdade é que a revalorização destes territórios estava já em curso.

Embora às vezes silenciosos, os fundos europeus, nomeadamente os que são canalizados através do Norte 2020, não faltaram nem faltarão para investir em estratégias que ativem as identidades regionais a Norte, criando infraestruturas e serviços que diferenciam o território e estimulam a atividade turística sustentável, e gerando empresas e emprego de qualidade - o que os territórios precisam para fixarem pessoas.

Projetos como a ponte suspensa de Arouca (a "516"), a rede de miradouros da N323, no Douro, o centro tecnológico da água e do termalismo da Aquavalor, em Chaves, a ecopista do Tâmega, a reabilitação do Mosteiro de Ancede, em Baião, a Casa do Ermo, em Fafe, ou o Bike Mountain Center, em Ponte Lima, as residências artísticas no Cávado, Alto Minho e Ave, o Centro Interpretativo da Morte e do Diabo, em Vinhais, ou a marca Terras de Trás-os-Montes, entre largas dezenas de outros (muitos privados), são exemplos de uma transformação promissora em curso.

O sucesso destes programas designados PROVERE - no Alto Minho, Cávado e Ave, no Tâmega e Sousa, no Douro, em Trás-os-Montes e no Alto Tâmega - só é possível porque assumem uma vocação territorial. Quer isto dizer que não foram criados abstratamente, num gabinete de um organismo do Estado, mas antes "de baixo para cima", respeitando a autonomia dos territórios para definirem estratégia e investimentos, associando instituições públicas e privadas.

Os mais de 100 milhões de euros já atribuídos pela CCDR-N a estes programas são apenas a alavanca, porque o que mais importa está na dinâmica dos territórios e na sua "governança". Essa concertação de coletivos torna possível que aqui sejam investidos dois euros de investimento privado por cada euro de investimento público.

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É na base destes bons exemplos dos territórios que devemos construir o futuro. Ignorá-los é comprometê-lo.

*Presidente da CCDR-N

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