Opinião

O paradoxo e a chave

A realidade é muitas vezes ambivalente, contraditória. Uma conquista motivadora anda muitas vezes de mãos dadas com a tragédia. Este verão traz-nos notícias assim. Numa mão recebemos a expectativa do melhor ano de sempre no turismo, em hóspedes, dormidas e proveitos. Temos feito, e bem, por isso - e também ou especialmente a Norte. Mas na outra mão recebemos as imagens e notícias de incêndios devastadores sobre as nossas paisagens, serras, florestas e aldeias, com especial intensidade e dimensão no Centro e no Norte. De tão recorrentes, essas imagens tornam-se banais. Carregam-nas ainda de maior dramatismo a seca que nos assola e que implicará, por si só, mudanças radicais no uso e gestão da água, com especial significado nas atividades agrícolas.

É em romper a banalidade e a fatalidade desse paradoxo - que insiste em contrapor os sucessos do país ao recorrente fracasso dos territórios - que nos devemos concentrar. Até porque esse paradoxo não é mais sustentável. O turismo volta aqui a ser um bom exemplo: a sua atratividade e a sua força vivem de ativos e experiências eminentemente territoriais, geográficos, naturais e culturais, e, claro, das pessoas que os fazem e mantêm. As suas condições de futuro dependem, pois, da capacidade de invertermos este insucesso dos territórios, superando debilidades e ameaças que os tolhem. Insucesso que persiste espelhado nas assimetrias de rendimento e de atratividade de pessoas e atividades, no consequente desequilíbrio demográfico e no despovoamento, e mesmo no isolamento digital.

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Este estado de coisas reclama um modelo diferente de atuação, um modelo de políticas territorial, regional, de proximidade e mais integradas. Hoje, os problemas e os desafios da gestão da água são também os da agricultura, da pecuária e das florestas; e os destes, os da indústria ou do turismo; e os da indústria e do turismo são também os do ordenamento do território e das cidades, do património e cultura, da educação e ciência. Por sua vez, estes implicam-se na demografia, na mobilidade e no capital humano. Num mundo imbricado, interdependente e diverso como aquele em que vivemos, não se pode gerir presente e futuro num escritório de gavetas estanques, segundo abstrações teóricas.

É nesta visão, quanto a mim, que se deve basear a reforma territorial do Estado e um modelo mais articulado de políticas e de gestão dos diferentes fundos europeus.

O território é, simultaneamente, o paradoxo e a chave.

*Presidente da CCDR-N

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