Opinião

Que políticas públicas para a revitalização do Interior

Nos últimos tempos surgiram notícias sobre acontecimentos e decisões vitais para o país. Desde logo, os resultados do grupo de peritos dos incêndios que sugerem a necessidade de inverter o modelo de desenvolvimento atual. Importa inverter o modelo de forças centrífugas com epicentro no litoral, cujos resultados negativos sobre o interior são conhecidos.

A questão central incide sobre políticas públicas que permitam reter e atrair pessoas nas regiões de baixa densidade, através da dinamização da atividade económica. Isto é possível através da utilização inteligente dos recursos, apoiando uma rede de polos regionais centrados na bioeconomia, incluindo a agricultura inteligente, digitalização, bem-estar e segurança.

Existem iniciativas promovidas por autarquias que vão neste sentido, casos do Fundão e Viseu. Mas, os anúncios mais sonantes apontam para os eixos de Lisboa e Porto. A decisão das grandes multinacionais investirem no digital em Portugal deve-se à vantagem no custo real do trabalho europeu. A história revela poder ser uma vantagem temporal que facilmente essas empresas se deslocalizam, até pelo baixo investimento em ativos tangíveis.

Em contraciclo com o investimento em bens transacionáveis, foi anunciada a intenção da aposta do Governo na reprogramação do Portugal 2020, privilegiando as acessibilidades dos grandes centros urbanos. Não foram divulgados estudos baseados no conceito de custo de oportunidade que suportem as propostas. Contudo, este tipo de investimento tem efeito de bola de neve, em que melhores acessibilidades nas grandes urbes atraem mais pessoas e maior investimento, esvaziando o resto do país.

Estas decisões surgem no momento em que a Europa reflete sobre o futuro quadro comunitário, centrado num novo modelo de desenvolvimento baseado em ecossistemas de inovação territorial. Note-se que o atual quadro foi pensado à luz das políticas de coesão, enquanto instrumento de apoio às regiões menos desenvolvidas ou com especiais dificuldades estruturais.

A aposta na estratégia inteligente assente na investigação e inovação, como prioridade para o futuro da Europa mantendo a política de coesão exige abertura, visão e vontade política. A história mostra que os fundos estruturais de investigação, desenvolvimento e inovação não potenciaram a convergência entre as regiões, mas a concentração nos grandes centros urbanos.

Em suma, a aposta na coesão e no desenvolvimento do interior exige que os fundos permitam alcançar a desejada convergência, já nesta fase reprogramação.

REITOR DA UTAD