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António José Gouveia

Festas legais e ilegais

Tanto o primeiro-ministro como o presidente da República voltaram a sublinhar a necessidade de "um quadro punitivo" ou "medidas mais duras", respetivamente, relacionadas com os ajuntamentos que se vão vendo um pouco por todo o país, mas com maior incidência em Lisboa e no Algarve, onde as festas ilegais começaram a proliferar, quebrando assim as regras antipandemia. Ambos, com razão, mostraram a sua preocupação por uma doença que não pára, trazendo para a contabilidade dos números más notícias. Portugal passou, num espaço de dois meses, de um exemplo para a Europa no combate à covid para um dos únicos países em que é vedada a entrada nas fronteiras de uma série de estados-membros da União. Centrados em que haja aqui um equilíbrio entre a erradicação da pandemia e o voltar à normalidade, tanto António Costa como Marcelo Rebelo de Sousa deveriam tentar compreender o comportamento dos portugueses com o verão à porta. Como latinos que somos, a vivência nesta época do ano é na rua e, se possível, até de madrugada. Como é verificável, os ajuntamentos em vários pontos das cidades do país são uma alternativa ao fecho obrigatório dos cafés e afins às 23 horas. O que fez o Governo? Diminuiu ainda mais o horário para as 20 horas. Tendo em conta este cenário, o que é melhor? Parece de bom senso que uma extensão do horário dos cafés e restaurantes para além do estipulado permitiria manter as pessoas dentro das regras e com maior segurança. A outra opção é juntarem-se às centenas em jardins e espaços públicos onde o controlo do distanciamento social não existe. No fundo, em vez de estarem concentradas no espaço público, estariam espalhadas pelos vários restaurantes, cafés e esplanadas e dentro do que são as regras básicas de combate à pandemia. Ou seja, um entretenimento controlado e confinado, como aliás o fizeram Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa este fim de semana. O presidente da República no Centro Cultural de Belém, para assistir ao concerto comemorativo do aniversário da Orquestra Metropolitana de Lisboa, e o primeiro-ministro num espetáculo no Teatro Nacional D. Maria II.

António José Gouveia

Viver à custa dos outros

Parasitas. Não, não é o filme coreano que surpreendeu o mundo ao ganhar quatro Oscars na madrugada de ontem. Nem um senhor que tem nome de desenho animado ou de uma onomatopeia de banda desenhada: Bong! Estamos a falar de quem come ou vive custa de outro ou de outros, conforme está escrito no dicionário. Também pode significar inútil e supérfluo. Do grego parásitos, que come à mesa de outro. Toda esta introdução para classificar a leviandade com que os deputados debateram as mais de mil propostas de alteração ao Orçamento do Estado. Como os parasitas fazem tão bem, assistiram-se a jogos de sobrevivência e de estratégia para continuarem vivos, mesmo que à custa das famílias e das empresas, afogadas em impostos. Estes parasitas não puxam pela economia, apenas entregam a quem mais barulho faz e mais poder reivindicativo tem. À Direita, escandalize-se quem voltar a ouvir o CDS ou o PSD criticar o Governo por excesso de carga fiscal. Tiveram a oportunidade de a baixar. Não só pela sua performance no tema do IVA da eletricidade, mas também pela ausência absoluta de propostas para reduzir a fiscalidade, principalmente das empresas, o motor de qualquer economia. No IVA da luz, o PSD perdeu-se na noção daquilo que realmente queria lutar e o CDS, taticamente, colocou-se ao lado do Governo. À Esquerda, as nuances são diferentes mas não deixam de ter semelhanças à comédia negra com assinatura do realizador sul-coreano Bong Joon-ho. O PCP, em vias de mudança de líder, apesar de Jerónimo de Sousa dizer que não vai "calçar as pantufas", não está interessado em eleições e, por isso, está de pedra e cal no apoio a Costa. O Governo conseguiu dividir para reinar e prometer que para o ano é que é a verdadeira baixa de impostos. Deveria ser para ontem. Precisamos de investimento e esse não é o Estado que o faz. Pelo contrário, pesa e de que maneira.

António José Gouveia

Fazer turismo numa Arábia Saudita pouco apetecível

Mas alguém se lembraria de passar férias na Arábia Saudita? Se sim, agora já é possível. O reino ultraconservador que faz execuções públicas, que asfixia completamente as mulheres e em que o consumo de álcool é altamente punido, decidiu, pela primeira vez na sua história, criar um visto de turismo. A medida, que torna acessível um país fechado sobre si mesmo, constitui um dos pilares das reformas impulsionadas pelo príncipe herdeiro Mohamed bin Salman.