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Opinião

Dar música a Putin

Praticamente na mesma altura em que a Finlândia anunciava formalmente a candidatura de adesão à NATO, um ato político de forte impacto mediático acontecia também em Turim, Itália. A Ucrânia vencia o festival da Eurovisão com a Kalush Orchestra a esmagar com os votos do público europeu. Ou seja, à medida que a invasão russa à Ucrânia se aproxima da marca dos três meses, quase toda a Europa parou no sábado para homenagear o esforço de resistência do povo ucraniano. Depois da Rússia ter sido banida do concurso logo no início da guerra, Putin volta a juntar duas derrotas numa só: mais isolamento para Moscovo dos grandes palcos internacionais e vizinhos cada vez mais desconfiados das verdadeiras intenções do Kremlin. Depois de 75 anos de neutralidade, a Finlândia não quer voltar a viver a "Guerra de Inverno", quando, em 1939, mais de 400 mil soldados, milhares de tanques, aviões e artilharia pesada invadiram o país. Se Putin não queria a adesão da Ucrânia à NATO, os seus movimentos bélicos provocaram agora uma Aliança Atlântica plantada em mais 1300 quilómetros na sua fronteira com a Finlândia. Isto sem esquecer que a Suécia será a próxima.

A Eurovisão, concebida para ser uma competição saudável entre países europeus, sempre teve um cariz político nas votações, apesar de não ser esse o espírito. E com a vitória da Ucrânia, mais uma vez se confirmou que o evento não são só várias canções de que se gosta ou não. Como esperado, embora o júri profissional tenham apoiado principalmente outros países, o voto popular foi esmagadoramente para a Ucrânia. É precisamente este sentimento político não assumido que traz grandes audiências ano após ano. É o evento não desportivo do Mundo com mais audiência, cerca de 200 milhões de pessoas. Desde a aceitação de Israel como membro em 1973 até a onda de países do Leste Europeu que, após a queda do Muro de Berlim, se tornaram elegíveis, a Eurovisão é um evento que reflete os tempos. O favoritismo político sempre foi visível entre o júri, com os países a ver o voto como uma ferramenta para agradar aos seus vizinhos ou, pelo contrário, mostrar divergências políticas. Está visto que a Ucrânia deu música a Putin.

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*Editor-executivo

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