O Jogo ao Vivo

Opinião

"G'anda seca"

Provavelmente já terá reparado que os invernos estão mais curtos, que as ondas de calor são cada vez mais frequentes ou que a chuva não é tão abundante como há alguns anos.

Portugal está a tornar-se no melhor país africano para se viver? Estaremos cada vez mais perto do clima dos países do Norte de África? Os especialistas dizem que sim e, por isso, antes que seja tarde, é melhor começar a traçar planos a longo prazo para combater este flagelo.

Quem tem o poder em Portugal são as cidades, principalmente a capital, e, por razões de mera proximidade, os efeitos da seca não são traduzidos no dia a dia dos cidadãos mais urbanos. Quando muito, sentem-se incomodados e dizem que são "uma g"anda seca". Para eles, a chuva é um incómodo, até porque abrem a torneira e têm água de qualidade. Como sensibilizar para a falta de chuva, quando 80% da população vive no litoral e em aglomerados urbanos? As primeiras a sentir a seca são as populações do interior através do sofrimento dos agricultores, completamente baralhados com o clima e sem respostas imediatas para a perda de culturas ou da alimentação animal.

PUB

Apesar da seca extrema, Portugal não é um país com falta de água. Aliás, as mudanças climáticas ainda não afetam muito o dia a dia da população porque, felizmente, nos países desenvolvidos, esses contratempos são resolvidos de alguma forma, quando comparado com o Norte de África, onde as secas são cada vez mais frequentes e sem condições para as populações se adaptarem.

Quem consulta os documentos oficiais da Agência Portuguesa do Ambiente e de outras instituições, chega à conclusão de que temos muitos mais recursos de água do que o volume que consumimos em todos os setores. O problema aqui é a distribuição territorial e sazonal. Ou seja, não há água suficiente onde ela é mais precisa e não há água suficiente quando ela é mais precisa. E é isso que é preciso mudar. Constituem-se comissões da seca para quê? Promete-se investir milhões e quando vem um ciclo chuvoso tudo é esquecido. Não há um plano nacional de longo prazo para reter a água nas geografias mais prementes, e isso é essencial.

NOTA: Esta crónica saiu nesta mesma coluna a 31 de outubro de 2017. Após quase quatro anos e meio, pouco ou nada mudou. Só nos lembramos de Santa Bárbara quando troveja.

*Editor-executivo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG