Opinião

Estado dá lucro e é bom?

Os partidos mais à esquerda que apoiam o Governo de António Costa andam preocupados com o "lucro" do Estado. Ou seja, no seu programa de Estabilidade, o Executivo estima saldos orçamentais primários positivos (sem despesa com juros) até, pelo menos, 2022. Uma meta que implica o Estado dar "lucro" durante tanto tempo não é coisa que tanto o Bloco de Esquerda como o PCP e o PEV queiram. Para o ministro das Finanças, esta trajetória é essencial para atingir mais um recorde não só pessoal mas do país. O "Ronaldo das Finanças" não ambiciona mais uma Champions, mas quer ser o campeão europeu em termos de descida da dívida pública. Mesmo que, para isso, tenha a oposição férrea dos partidos à esquerda do PS. É que tanto o BE como o PCP não querem um ritmo que consideram demasiado elevado de consolidação orçamental por recear um risco à capacidade de crescimento da economia, à melhoria dos rendimentos da população e à qualidade dos serviços públicos. Dito de outra forma, este objetivo de Mário Centeno não inclui descongelamento total das carreiras dos professores ou a inclusão de milhares de precários sem controlo na Função Pública. As contas ainda estão pouco maturadas, mas as reivindicações dos parceiros de coligação, à partida, não casam com um Estado a dar "lucro". Ontem, o Banco de Portugal anunciou uma queda histórica da dívida pública em 3,6 mil milhões de euros. É verdade que o Governo tem beneficiado de juros baixíssimos quando comparado com o tempo da troika. Enquanto assim continuar, o objetivo de passar de um máximo de 130,1% do PIB em 2016 para 102% em 2022 pode ser alcançado. É pena que tal dependa dos humores de Mário Draghi - se aumenta ou não os juros atuais - e do andamento da economia europeia. Ou seja, nós e os nossos filhos vamos ainda ter de dar muito lucro ao Estado para se cumprir o desígnio de atingir uma dívida pública de 60% do PIB, conforme exigem os nossos parceiros europeus.

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