Opinião

O fracasso do país?

O presidente Marcelo começou com um discurso de angústia, descrença e desilusão e terminou convencidíssimo de que, apesar de tudo, os portugueses têm confiança no sistema e em si próprios ou não teríamos sobrevivido como nação quase 900 anos.

O 10 de junho, comemorado ontem em Portalegre, foi diferente porque, pela primeira vez, um presidente da República fez questão de tocar com o dedo na ferida, sem subterfúgios ou segundas palavras que obrigassem a leituras obscuras. Nos seus 15 minutos de intervenção, Marcelo olhou para o presente, mais à frente para o passado e terminou com o futuro. Frisou que não se omitam os "fracassos" da nossa sociedade, e correu-os a todos: "corrupções, falências da justiça, insatisfações, indignações, cansaços, esquecimentos ou incapacidades, exigência constante de maior seriedade e ética na vida pública".

Na verdade, tudo a que assistimos atualmente nos mais variados setores da sociedade. O presidente não se mostrou pessimista, antes pelo contrário. Quis puxar por uma credibilidade que ainda não existe. É difícil de sarar uma economia sempre em dificuldades. Constantemente a sobreviver de bancarrotas consecutivas - se não é a nossa é a do país - ou um Portugal cada vez mais desigual onde imperam os esquemas e os jeitinhos. Disso deu o alerta João Miguel Tavares, que Marcelo convidou para presidir às comemorações do Dia de Portugal.

Exaltar os portugueses faz parte deste dia. E Marcelo não se esqueceu de incluir alguns toques de discursos de misses acabadas de serem coroadas: sermos cada vez mais uma comunidade de inclusão, "com maior capacidade de antecipar as mudanças, um país muito mais justo, solidário e humano do que o passado que honramos e o presente que construímos". É preciso puxar pela autoestima e autoconsciência e nada como o presidente dos afetos para o fazer.

*Editor-executivo