Opinião

Medo de errar

O caos nas urgências vem pôr a nu, mais uma vez, a falta de profissionais de saúde num sistema público pouco atrativo. O Serviço Nacional de Saúde está metido num círculo vicioso do qual só poderá sair com um plano de choque que aborde a sobrecarga de trabalho e a precariedade laboral.

Os médicos e outros profissionais de saúde há muito que se queixam de consultas superlotadas, baixos salários, poucos incentivos profissionais e pressão crescente dos seus pacientes. A verdadeira crise começou na altura em que o país esteve sob resgate da troika, com alguns cortes que deixaram o sistema de saúde em situação crítica. E quando ainda estava em recuperação lenta, em 2020 o SNS foi atingido pela pandemia. Os profissionais de saúde receberam muitos elogios e aplausos, mas acabaram por sair muito piores do que já estavam, com um sistema acometido de deficiências crónicas, agravadas por sucessivas crises e enorme cansaço.

Se fosse um bom médico (que não sou), diria que o diagnóstico já está feito há muito tempo, mas as soluções terapêuticas são sempre adiadas, ou por motivos de falta de mão de obra ou por razões orçamentais. O Governo de António Costa até tem aumentado a contratação de profissionais de saúde, mas não consegue acompanhar aqueles que se reformam ou que se refugiam no setor privado ou no estrangeiro. Claro está que estas migrações aumentam a carga de atendimento dos médicos remanescentes, alimentando um círculo vicioso. Não é aceitável que uma grande parte dos médicos esteja em contratos temporários que asseguram o serviço ao SNS por honorários pornográficos nas urgências. O reverso da medalha é que os baixos salários fazem com que muitos médicos tenham de fazer horas extra abusivas.

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Os bancos de 24 horas são um exemplo de uma solução organizacional pensada mais para atender as necessidades do próprio hospital do que de médicos e de pacientes. Essas longas horas implicam um maior risco de erro a que os médicos e enfermeiros não deveriam estar sujeitos. Daí a proliferação das escusas de responsabilidade um pouco por todo o lado. O ministro da Saúde, chegado de novo, só tem de meter mãos à obra e ter dinheiro, muito dinheiro.

*Editor-executivo

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