Opinião

Tudo para pôr a cruzinha

Tudo para pôr a cruzinha

Os portugueses são conhecidos por reagir à adversidade com flexibilidade e rapidez. Na última semana, esteve no espaço público a possibilidade de as eleições presidenciais serem adiadas devido ao cavalgar da pandemia de covid-19 no país e as consequentes duras medidas de confinamento.

Ainda ontem, o recorde de mortes diárias subiu para 122 e o número de internados nos hospitais não pára de crescer. O PSD de Rui Rio deu um passo tímido para conversar sobre a hipótese de as eleições serem adiadas, caso os candidatos presidenciais assim o entendessem.

Só que, para adiar as eleições, é exigida uma revisão constitucional que não só não é possível durante o estado de emergência como deve ser gerida com ponderação. Resultado, a ideia, que parecia fazer todo o sentido, foi liminarmente travada por questões de prazos legais e constitucionais. Em tempos de um forte confinamento nas próximas semanas, a eleição para a Presidência da República, programada para 24 de janeiro, arrisca-se a bater um recorde do nível de abstenção.

Já sabemos que mais de metade dos eleitores não votaram nas eleições de há cinco anos (51,34%) e de há dez anos (53,5%). O Governo tem-se empenhado em dar ao eleitor múltiplas formas de votar: o voto antecipado, em mobilidade e, a grande novidade, no domicílio para os que estão em isolamento.

Sim, haverá brigadas lideradas pelos presidentes de Câmara a deslocar-se às casas e lares de idosos para que estes possam votar. Ou seja, os idosos que estiveram isolados desde março, que não puderam sair no Natal, não puderam ter visitas dos familiares, vão agora ser abordados por gente estranha para pôr a cruzinha.

Está-se mesmo a ver. Haverá autarcas para chegar aos milhares de casas e lares no país? É que a logística por detrás de uma operação destas dimensões poderá não estar ao alcance de todos. Somos inventivos, mas nem tanto.

*Editor-executivo

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