Opinião

Verdade, doa a quem doer

Verdade, doa a quem doer

A Igreja Católica portuguesa deu passos significativos na última semana quando a comissão independente, criada em janeiro para investigar abusos sexuais, disse já ter recebido 290 testemunhos válidos de vítimas e que 16 casos foram remetidos ao Ministério Público.

Até ao final do ano, a comissão pretende recolher testemunhos e denúncias de pessoas que tenham sofrido abusos na infância e adolescência, estando prometido que, no final dos seus trabalhos, será elaborado um relatório, a ser entregue à Conferência Episcopal Portuguesa, que decidirá que ações tomar.

Apesar de o relatório não estar finalizado, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, já foi avisando que não haverá afastamento preventivo dos clérigos e que os abusos sexuais devem ser analisados caso a caso. Já D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, em entrevista ao JN de ontem, revelou conhecer vítimas de abusos, um problema que não será deixado sem resposta.

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Bons indícios de uma instituição religiosa que passou de negar a natureza e dimensão do problema para aprofundar o que realmente se passa, colocando à frente da investigação personalidades que conhecem bem o assunto, como Pedro Strecht, que tratou das vítimas do escândalo Casa Pia.

Os frutos dessa mudança, no entanto, dependerão da capacidade da Conferência Episcopal de disciplinar os bispos, que até agora foram recalcitrantes. É um órgão colegial sem poder executivo decisório sobre as dioceses. Ou seja, cada um dos bispos tem plena autoridade e autonomia de gestão na sua jurisdição, o que até agora se revelou um enorme obstáculo para o avanço das investigações. Este problema não é um exclusivo dos bispos portugueses. Atravessa fronteiras, como, por exemplo, na vizinha Espanha, em que 30 bispos encobriram ou silenciaram casos de abuso. Depois de insistir durante anos que eram alguns eventos isolados, no início de março, a Igreja espanhola reconheceu 506 processos de pedofilia em 80 anos. A verdade é que, sem um claro desejo de transparência de todos os bispos e sem a colaboração das vítimas, será difícil para esta comissão cumprir o objetivo de esclarecer a verdade.

*Editor-executivo

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