Opinião

Santana

Santana não deu ao país nem uma obra, nem um projeto, nem uma ideia. Santana é entre nós superior e ilustre unicamente porque tem um imenso talento e é lisboeta (...). O talento imenso de Santana, embora, por vezes, com alguns espasmos de espalhafato, ficou sempre estéril, improdutivo e recolhido nas profundidades secretas de Santana.

Constantemente ele atravessou a vida sobre eminências sociais: ele foi adjunto do ministro-adjunto do primeiro-ministro do IV Governo Constitucional; assessor jurídico do gabinete do primeiro-ministro do VI Governo Constitucional; sete vezes deputado à Assembleia da República; secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros do X Governo Constitucional; secretário de Estado da Cultura do XI Governo Constitucional; secretário de Estado da Cultura do XII Governo Constitucional; deputado ao Parlamento Europeu; presidente da Mesa do Congresso da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP); presidente do Conselho-Geral da ANMP; presidente do Conselho da Região Centro; presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz; vice-presidente da Mesa do Comité das Regiões; vice-presidente da UCCI (seja lá que isto for) para a Península Ibérica; vice-presidente do Comité Executivo do Fórum Europeu de Segurança Urbana; presidente da União das Cidades Capitais Luso-Afro-Américo-Asiáticas; presidente da Câmara Municipal de Lisboa; primeiro-ministro do XVI Governo Constitucional (cargo que exerceu durante oito meses por herança de Durão Barroso e do qual foi varrido pelos portugueses nas eleições legislativas de 2005, logo após ter sido espanado pelo presidente da República, Jorge Sampaio); vereador da Câmara Municipal de Lisboa; provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (durante cujo mandato a instituição foi alvo de buscas judiciais levadas a cabo pela Polícia Judiciária por suspeitas de crimes de corrupção e participação económica).

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Além disso, é militante do Partido Social-Democrata (PSD) desde outubro de 1976 e foi presidente da Comissão Política Distrital da Área Metropolitana de Lisboa do PSD, presidente da Mesa da Assembleia-Geral dos Autarcas sociais-democratas, vice-presidente do PSD, presidente do PSD, Líder do Grupo Parlamentar do PSD.

No meio dessa azáfama de cargos públicos e partidários, Santana ainda conseguiu ser presidente do Sporting Club de Portugal. E porque não tinha nada para dar ao clube além do seu imenso talento, só desempenhou o cargo durante alguns meses, tempo, porém, suficiente para despedir o treinador Carlos Queirós e acabar com o futebol feminino, o voleibol, o basquetebol e o hóquei em patins.

Não satisfeito com tudo o que foi e teve, Santana candidata-se, agora, pela quinta vez, a presidente do PSD, cargo para o qual nunca foi eleito mas que já ocupou também por herança de Durão Barroso que o abandonara. Nas anteriores candidaturas foi derrotado em três delas e numa outra desistiu à boca das urnas, provavelmente com um ataque de pânico. Com esta quinta candidatura, Santana pretende, obviamente, usar o seu imenso talento para levar, outra vez, o PSD aos altos cumes dourados da política portuguesa em que já o havia colocado nos idos de 2004 e 2005.

Enfim, Santana, essa espécie de Lili Caneças da política portuguesa, tudo foi, tudo teve, nessa Lisboa que, de longe e a seus pés, o contempla, embevecida e assombrada com o seu imenso talento. Aliás, a testa de Santana indicia, claramente, esse talento, pois oferece uma superfície larga e lustrosa. E muitas vezes, junto dele, conselheiros, governantes, deputados, comendadores, comentadores, jornalistas, autarcas, santanetes, dirigentes desportivos e diretores-gerais balbuciam maravilhados: - "Nem é preciso mais! Basta ver para aquela testa!".

Além desse imenso talento Santana dispõe também, em Lisboa, de um imenso séquito de medíocres e de parasitas que o acompanham sempre à espera dos despojos de mais uma vitória ou nomeação.

Santana e Lisboa, de resto, necessitam insubstituivelmente um do outro. Sem Lisboa Santana não seria o que é entre os políticos portugueses; mas sem Santana Lisboa não seria o que é entre as cidades de Portugal!

* EURODEPUTADO

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