Opinião

O partido ordeiro

A propósito da substituição de Jerónimo de Sousa, o PCP indicou Paulo Raimundo como seu secretário-geral. Foi um processo que decorreu sem agitação e de uma forma coreana: candidato único e por unanimidade.

Na análise deste processo vale a pena avaliar, em pleno século XXI, este partido centenário e a eficácia do seu discurso político.

O PCP dá o seu contributo para o regime contestando sempre e acabando a defender a última reforma contra a qual se bateu.

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O PCP, contudo, contribui para uma rua ordeira alinhando os seus sindicatos e as suas autarquias na contestação à ordem existente seja ela da Direita ou do PS.

Sofreu com a maioria Cavaco e, depois, com Costa após o beijo de morte que foi a geringonça. Se olharmos para os resultados eleitorais do PCP reparamos que sofreu uma perda de deputados no Parlamento significativa com a maioria cavaquista, começou com 38 deputados e terminou com 15 e, na última maioria de António Costa, a mais recente, de novo tal aconteceu, de 17 para seis deputados.

Em 26 anos tem menos 32 deputados. O PCP tem vindo a perder eleitorado e esquece a necessidade de adaptar o seu discurso aos novos tempos. Para os eleitores não se trata de esperar sentado. Trata-se da urgência de resolver problemas.

Em termos de poder local, o PCP veio de 55 câmaras, em 1982, para 19 em 2021, o mais baixo resultado de sempre. Perante este constante desgaste eleitoral, a solução qual é?

Eleger alguém que nasceu depois do 25 de Abril e vai tentar manter vivo o partido não alterando o seu discurso e posicionamento na sociedade portuguesa. Ora, Jerónimo de Sousa teve essa vantagem de permitir, perante esse constante desgaste, mais 18 anos de influência do PCP mantendo vivo o seu código genético da resistência ao fascismo e fazendo a transição entre o Estado Novo e a democracia.

Sai com elogios de todos, da Direita à Esquerda, em termos de caráter, o que não deixa de ser muito positivo.

Deixa uma escola importante ao Partido, mas que poderá não ultrapassar a crise do BE e após a desilusão do PS junto de uma certa esquerda que prefere arruinar o país a aceitar reformas mantendo a esquerda no coração mas a carteira à direita.

Com a epidemia, como se pode continuar a falar de trabalhadores operários e de camponeses no mundo da digitalização? As fábricas mudaram. Os campos estão mais exigentes. As alterações climáticas e a transição digital alteraram o espaço e o sentido da luta. A foice e o martelo dizem pouco no século XXI. O fantasma da extrema-direita e a megalomania dos seus dirigentes permitem ao PCP manter o seu discurso.

Os ventos da história, esses é que já não ajudam muito.

*Professor universitário de Ciência Política

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