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Problemas e desafios a encarar no trabalho, na economia, nas áreas do social, ou na política no seu geral, são tratadas hoje, amiúde, sem recurso a evidências científicas e empíricas de que a sociedade dispõe, ou escondendo-as propositadamente. A partir da exploração mediática de interesses e situações casuísticas, criam-se perceções erradas e cometem-se erros no desenho de políticas, gerando injustiças, desigualdades e sofrimento.
Na passada quarta-feira, na Gulbenkian, em Lisboa, o Laboratório Colaborativo para o Trabalho, o Emprego e a Proteção Social (CoLABOR)* realizou as suas jornadas anuais sob o lema "Dinâmicas socioeconómicas, trabalho e poder local", e apresentou a publicação "O trabalho, o emprego e a proteção social em 2025. Os impactos desiguais da transição climática no emprego". Trataram este e outros temas conexos, investigadores, quadros de instituições e de empresas privadas e autarcas experientes.
No combate à pobreza, na caraterização da população imigrante e dos problemas com que esta se depara, observa-se que as políticas que vêm sendo implementadas transportam graves perdas nas condições de cidadania. Ficou também claro que os imigrantes não são uma população homogénea e que há experiências exemplares, como é o caso do Fundão (referido internacionalmente), que deviam ser divulgadas e generalizadas.
Uma das dimensões mais relevadas daquele estudo aborda o (recente) fenómeno da chamada sobrequalificação. Em 2023, os trabalhadores com ensino superior, mas em funções desalinhadas com esse grau académico (os "sobrequalificados") recebiam menos 36,8% do que aqueles que encontram funções correspondentes àquele grau de formação. As causas deste desfasamento têm como origem principal o baixo perfil de especialização económica do país e o insuficiente investimento nas estruturas públicas que nos prestam os direitos fundamentais e os serviços essenciais.
Quanto às respostas às alterações climáticas e ao emprego a elas associado, verifica-se que, ao contrário da propaganda a que vamos assistindo, a proporção de "empregos verdes" diminuiu em Portugal entre 2010 e 2023, passando de 14,6% para 13,1% do emprego total.
É preciso mensurar a amplitude dos grupos de trabalhadores e profissões mais vulneráveis numa economia de baixo carbono, mas sobretudo delimitar os diferentes perfis socioprofissionais deste universo de trabalhadores. São evidentes disrupções graves na qualidade do emprego, mas também nas condições em que ficam as comunidades locais. Pode gerar-se emprego muito pouco qualificado e inviabilizarem-se coligações sociais e políticas de resistência à redução das emissões de gases de efeito de estufa.
Em defesa da democracia, temos de dar forte combate a perceções manipuladas em torno de subsídios como o RSI, da situação e valor dos direitos laborais, da segurança social, da habitação, da educação e da saúde.

