Anda meio mundo embasbacado por Maria Luís Albuquerque ter decidido vender a um espanhol por 2800 euros apenas, a pitoresca casa fronteiriça da Guarda Fiscal em S. Gregório, Melgaço ("o primeiro pedaço de Portugal") mas esquecem-se de que o Fisco não tem feito outra coisa senão vender as casas dos portugueses; só este ano foram penhorados e vendidos 31506 imóveis, cerca de 189 lares por dia!
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Uma casa é o último refúgio do cansaço, como o corpo é o refúgio último da dignidade. Nos últimos anos, as políticas adoptadas tiveram o condão de transformar cidadãos honrados em vulgares criminosos, sobre quem as Finanças vêm quando já não há rendas, contas, créditos, salário ou pensão para entregar, somente o desmesurado desemprego. Em seis meses, foram penhorados e vendidos mais de 23 mil veículos; na Banca, há 153 novos incumpridores por dia e, só em 2012, 11684 famílias pediram insolvência sendo que, pela primeira vez, o número de insolvências de pessoas singulares ultrapassou o de empresas. São agora as pessoas, enquanto pessoas, que estão a falir e não haverá nada mais miserável do que possuir apenas a pele para descerrar uma envergonhada nudez.
Mais do que a penhora de bens, as políticas adoptadas tiveram o condão de penhorar a Esperança; na última década, o uso de antipsicóticos aumentou 171%, tendo o Bastonário dos Psicólogos alertado para o efeito arrasador que a "desesperança e a ausência de futuro" podem ter na saúde mental dos portugueses. Desde 2011 que se registam mais suicídios do que mortes na estrada; só nos primeiros quatro meses deste ano ocorreram 294, designadamente no grupo de desempregados com mais de 45 anos; o coordenador do Plano de Prevenção da Depressão e do Suicídio corroborou que é tempo de os políticos se perguntarem se estas mortes não poderiam ter sido evitadas.
Enquanto isto, o primeiro-ministro insiste em governar (já não para os portugueses mas) para um número, 4%, assistindo darwinianamente ao desmoronar das famílias como se de um efeito colateral (neoliberal) menor se tratasse. E o país está de volta à normalidade: a conceituada agência Bloomberg rotulou o swap da Metro do Porto como uma opção "obscura e maravilhosamente estúpida"; a troika autorizou novas PPP (!!?), e expressões como "Freeport", "Portucale", "Taguspark", "BPN" ou "BPP" são agora longínquas anedotas. Onde antes se corrompia por mar ("Unterseeboote, Frau Merkel?") corrompe-se agora por terra: um administrador dos Transportes Urbanos de Coimbra foi acusado de receber 20 mil euros para selecionar autocarros alemães da MAN (igualmente suspeita de gastar 428 mil euros em "luvas" com ex-administradores dos Transportes Urbanos de Braga) e na CP, a compra (a três dias de umas Legislativas) de 25 locomotivas da marca (também) alemã Siemens por 105 milhões de euros, deixou sem serventia 26 locomotivas francesas acabadinhas de modernizar, umas e outras bastante úteis para transportar o fantasma dos 27 milhões de passageiros que a CP perdeu nos últimos quatro anos. Mas Frau Merkel emprestou, it"s pay back time!
Entretanto, instado a escalpelizar os documentos que enviou ao Banco de Portugal denunciando irregularidades no BCP, o pistoleiro Berardo atirou: "Saí aos 13 anos da escola, tenho dislexia e não me lembro". Mais um! Berlusconi também foi condenado a serviço comunitário num lar de idosos com alzheimer (lá está), para que nunca mais se esquecesse! A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, revelou que as prescrições representam somente 0,05% dos processos, pena é (que pontaria!) um deles ter sido exactamente o do BCP! Como cúmulo do absurdo (Daniil Kharms adoraria esta), a comandita que nos governa prepara-se para integrar actividades tão legais quanto a prostituição, a droga e o contrabando para fazer crescer "legalmente" o PIB em 2%; sempre me pareceu que haveriam de ser príncipes do submundo a salvar este país. Tivessem integrado também a corrupção e o PIB cresceria em mais de 10%.
Mas é véspera de S. João, noite para beber cerveja, doirar umas sardinhas e lançar balões ao ar. Acaso, porém, lhe ocorra, leitor, a visão de um desses garotos que nos governa a inchar, inchar, a subir no ar como um balão até (puff!!) desaparecer de vez, acredite, não será o cronista a censurá-lo.
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