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De entre os vários cenários que se vão desenhando em torno das eleições presidenciais, parece haver uma certeza: a de que nada ficará decidido na primeira volta. As sondagens têm-nos dito coisas distintas sobre as preferências dos portugueses, mas todas convergem na divisão do eleitorado e na necessidade de uma segunda ida às urnas. Outra lição que fica é de que um sufrágio que, à partida, deveria ser o menos partidário de todos, se transformou numa segunda liga das legislativas. Todos os partidos exibem o "seu" representante. E apenas a candidatura de Gouveia e Melo, que quer seduzir todos sem se comprometer com pousios ideológicos, não floresceu de uma base partidária.
Os portugueses sabem pouco (nem parecem interessados) sobre a amplitude constitucional das funções presidenciais, razão pela qual a campanha tem estado centrada nas matérias da governação. O debate sobre as competências do chefe de Estado tem sido uma vírgula num mar de frases vazias e achismos. Chegados aqui, constatamos que a Esquerda andou demasiado tempo entretida a diabolizar André Ventura e Gouveia e Melo e não percebeu a armadilha em que se metera. Sem uma candidatura forte e mobilizadora, podia entregar os pontos ao Centro-Direita e à Direita radical. Está à vista. Quando acordarem, vão promover reflexões e expiar demónios no partido do lado. A culpa, de novo, será dos populistas do outro espectro, nunca deles. Já a Direita, que até tem menos candidatos "oficiais", vive refastelada nos créditos eleitorais da maioria no Parlamento. O que vai sobrar disto não sabemos, mas é bom que nos preparemos para o possível fim dos dias de "temperança" em Belém. Com tantos partidos numa eleição em que se foge deles como o Diabo da cruz, fica tudo enevoado. Vemo-nos na segunda volta.

