Opinião

A cultura regressa ao Porto

A cultura regressa ao Porto

Creio que devemos ser otimistas, no que toca à possibilidade do retorno à cidade do Porto de uma política amiga da cultura. Pôr-se-á fim a 12 anos sombrios a tal respeito, mais um de transição.Não digo que o mandato de Rui Rio se tivesse caraterizado pela ausência de uma política cultural. Há sempre uma política cultural, nem que seja por omissão. E, enquanto autarca, Rui Rio tanto primou por omissão como por ação. Por omissão, quando deixou cair a estrutura e a política de apoio à criação e aos criadores, que Manuela Melo, a melhor vereadora da Cultura que o Porto alguma vez teve, laboriosamente tinha construído, ao longo de outros 12 anos (de 1989 a 2001). E por ação, quando entregou o Rivoli a um empresário, fez depender o apoio público de votos de submissão das entidades apoiadas e exibiu uma corrida de avionetas e outra de automóveis como as grandes opções de animação urbana.

Esperava-se uma mudança de rumo, em consequência das últimas eleições autárquicas. E não creio que possamos considerar-nos já desiludidos. Rui Moreira abandonou o discurso demagogicamente anticultural do seu antecessor, o Executivo passou a incluir um vereador a tempo inteiro e este, Paulo Cunha e Silva, empenhou-se na restauração da confiança e colaboração entre a Autarquia e as instituições e agentes culturais da cidade.

A dotação orçamental é escassíssima. Mas o mal tem sido minorado com uma política de valorização pública dos recursos disponíveis e através também da imaginação do programador Cunha e Silva. Em 2014, o Porto pôde redescobrir espaços, peças e representações suas, muitas quase desconhecidas. Falo do ciclo "Um objeto e os seus discursos". Entretanto, uma nova atitude e capacidade de parceria mudou qualitativamente a programação dos museus, galerias e bibliotecas municipais. Muitos agentes culturais da cidade já aumentaram significativamente o nível de exigência face ao poder público, o que é sempre (infelizmente...) indicador seguro de que esse poder é mais disponível para as coisas da cultura.

Avereação preservou, e bem, o legado de Rui Rio, na intransigência face a pressões de particulares sobre os recursos públicos que não andam muito longe da chantagem. Refiro-me, especificamente, à gestão dos problemas surgidos com o Teatro do Campo Alegre e a Feira do Livro. Mas fê-lo com outra qualidade e isso está bem à vista neste último caso. Em setembro, o Porto terá a primeira edição de uma Feira do Livro, de organização municipal, reorientada (e esse é o ponto) para um festival literário (e não apenas para saldos). Iniciar-se-á depois a temporada do Rivoli, regressado à sua vocação de espaço público de promoção das artes performativas e articulado com o Campo Alegre num único Teatro Municipal.

Claro que o fôlego da política cultural dependerá crucialmente da prioridade que lhe venha a ser atribuída no próximo orçamento camarário. Esperemos que exista. Todos terão noção dos tempos de escassez que vivemos e, portanto, não é expectável nem exigível nenhum milagre; mas as prioridades definidas no discurso hão de ter forçosamente alguma tradução prática.

No entanto, ao contrário do que tanta gente pensa, o orçamento não é o princípio nem o fim da política cultural, mas sim instrumento. A administração pública não pode ser vista como uma caixa multibanco a que cada um vai sacar o máximo possível, cabendo só àquela garantir o numerário. Numa política pública, partimos de certos princípios para, em função simultaneamente dos recursos e das restrições, definirmos objetivos realizáveis e maneiras de os atingir. No Porto, parece que, depois de 12 anos de um inóspito deserto de ideias, se pensa outra vez sobre a cultura e se pensa outra vez que vale a pena pensar-se sobre a cultura.

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Já é um bom motivo para otimismo.

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