Opinião

Stabat mater

Ontem terminaram o seu labor 280 operários da fábrica Peugeot-Citroën (PSA) em Mangualde. O terceiro turno, iniciado no ano passado para responder a necessidades adicionais de produção, deixou de ser funcional. Ao longo dos últimos anos, o turno suplementar tem sido ora ativado ora suspenso, e os trabalhadores correspondentes ora empregados ora despedidos. Assim regula o contrato. Desta vez o turno até durou mais tempo do que previsto. E talvez a empresa precise de repô-lo num futuro próximo. Não admira, pois, que as reações das pessoas agora dispensadas sejam contidas, um misto de medo, resignação e esperança.

É difícil contestar a decisão da Administração a partir de critérios de racionalidade económica. O mercado automóvel é bastante competitivo, a PSA, segundo construtor europeu, já o sofreu duramente na pele e foi o seu poder de adaptação aos novos tempos ditos globais e flexíveis que a poupou ao triste fim de outras grandes marcas. A possibilidade de ajustar imediata e sistemicamente a capacidade de produção do conjunto das suas fábricas ao andamento da procura mundial é um instrumento essencial de adaptação e, portanto, da sua própria sobrevivência.

A questão é que o mercado de trabalho não é - não deveria ser - um mercado de produtos. O trabalho humano não é igual a uma máquina que se compra quando é precisa, se gasta até ao limite e se deita fora no fim, para comprar outra. O trabalho é uma condição necessária da dignidade pessoal.

Aregulação social do capitalismo sempre procurou enquadrar esta questão. As comunidades tradicionais desamparadas pelo Estado amorteciam os efeitos de baixos salários ou desemprego através da pequena agricultura complementar ou de outras atividades económicas informais. O modelo japonês garantia uma fortíssima proteção ao núcleo duro dos trabalhadores ligados a grandes empresas como a famílias, à custa de um largo segmento exterior desprotegido, composto por mulheres ou trabalhadores precários e desqualificados. Mas os europeus conseguiram ir mais longe na regulação democrática da economia e fizeram questão de incluir a relação salarial no coração moral e na base institucional da sociedade de bem-estar.

Isto, que duas gerações sucessivas do pós-guerra puderam considerar um adquirido civilizacional, encontra-se hoje em causa. Duas empresas fundem-se e todo o mundo acha normal que o resultado imediato seja um despedimento massivo. A fábrica precisa ocasionalmente de aumentar a produção e emprega, deixa de precisar e despede. Pagando as indemnizações devidas, cumprindo a lei aplicável. Mas para todos os efeitos o trabalho, isto é, o trabalhador tornou-se um descartável. Volta a ser o jornaleiro engajado e excluído ao ritmo de cada dia, agora com subsídios e indemnizações. Não tardará muito e a Europa achará inevitável o que vê nos filmes americanos: despedido na hora, alguém pega na sua caixa de papelão e abandona o posto, enche a carrinha com uns tantos trapos e leva a família para mil quilómetros mais além, pode passar de um bom emprego para debaixo da ponte que poucos ligam e, se for ao contrário, se da rua sair para a riqueza, terá Hollywood a celebrá-lo. Cada qual que se amanhe.

Ofacto é que os cofundadores da economia social de mercado, sociais-democratas e democratas-cristãos, estão muito desprovidos, política e moralmente, face aos avanços do capitalismo sem regras. Por isso, não custa compreender que provenham da Igreja as palavras mais fortes contra a degradação da pessoa humana por via da precarização do trabalho.

Eu, pelo menos, creio perceber bem porque é que, entre as vozes internacionalmente mais audíveis, é a de Francisco, como antes a de João Paulo II, que parece mais sentida e sincera. A bem dizer, a sorte do operário de hoje, expiando quase sozinho as culpas de um Mundo que também não é o seu reino, não anda muito longe da sorte d" Aquele que Maria chorava, "dolorosa e lacrimosa, junto da Cruz".

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