Opinião

Uma questão de liderança

Uma questão de liderança

As eleições primárias do Partido Socialista (nas quais sou parte, apoiando António Costa) interessam a todo o país. E é útil considerar a forma como o conjunto da opinião publicada as tem acompanhado. Ela é bem ilustrativa de um ambiente mais geral, que é, a meu ver, um dos principais fatores de bloqueamento de uma solução política positiva para Portugal.

A disponibilidade de António Costa foi saudada como uma lufada de ar fresco. Nas eleições europeias, à grande derrota dos partidos do Governo não havia correspondido uma grande vitória do maior partido da Oposição. Era, pois, evidente um défice de credibilidade na alternativa política existente, e o avanço de Costa representava, em si mesmo, uma resposta a esse défice.

Iniciado o processo das primárias socialistas, os dois candidatos depressa consolidam as suas linhas de argumentação. Para António Seguro, que se acha credível, o PS estava bem e o desafio de Costa é que provocou uma crise. Na raiz do desafio está a fronda das elites habituadas ao Terreiro do Paço contra a possibilidade de um candidato oriundo e sintonizado com o país profundo poder vir a chefiar o Governo. Para António Costa, o PS não está a afirmar a sua alternativa porque não consegue distinguir-se qualitativamente da Direita. Para fazê-lo, deve partir da economia para as finanças públicas, e não o contrário: só com políticas de crescimento económico e com a inversão da lógica de retrocesso em matéria social é que é possível conduzir as reformas necessárias ao equilíbrio orçamental. Portanto, Costa pretende mobilizar os portugueses em torno de uma agenda política de médio prazo, em vez de prometer apenas fazer a mesma coisa que o atual Governo com um bocadinho menos de brutalidade.

A partir do momento em que a diferença entre os dois candidatos ficou assim estabelecida, poderia dizer-se tudo menos que ela não é clara. Ora, foi exatamente isso que passou a dizer a opinião publicada hegemonizada pelo pensamento de Direita e o jornalismo político e económico que a segue acriticamente. Impedida, por preconceito de classe, de confessar a preferência por Seguro, essa opinião opta por repetir até à exaustão que Costa não é ideologicamente diferente e que nada de concreto tem para apresentar.

Acontece que nenhum dos dois pontos tem relevância. O nosso problema não é ideológico, mas de capacidade política: como mudamos para um Governo que seja capaz de aproveitar os graus de liberdade e os sinais de evolução do quadro europeu para promover novas políticas? Quem está mais bem preparado para liderar esse Governo, forçando os acordos que se revelarem necessários? E, quanto a ser "concreto", como é que alguém responsável pode hoje comprometer-se com medidas pormenorizadas de política para 2016, quando a incerteza é tal que, por exemplo, a três meses do fim deste ano, as previsões para o défice orçamental oscilam entre os 4 e os 10%?

Quer no PS, quer no país, uma só questão está em jogo: a liderança. Quem achar que o que resta aos portugueses é continuar a sofrer a degradação dos serviços de educação e saúde, dos apoios sociais, dos rendimentos do trabalho e das expectativas de futuro, mas pagar os correntes e próximos BES, não precisa de mudar, que já está servido. Quem quiser mudar, tem de pensar diferente: pensar a prazo, para que os acordos sociais e políticos indispensáveis possam ter sentido; pensar na raiz dos problemas, para não ficar preso na armadilha orçamental; pensar nos nossos recursos, sem cuja mobilização plena não conseguiremos progredir. A liderança política está aqui, nesta capacidade de pensar diferente. E é porque não podem negá-la, sob pena de caírem no ridículo, a António Costa, que os epígonos locais da troika tocam na tecla do "concreto".

Tocam mal: não há nada de mais necessário, no Portugal de hoje, do que pensar e agir de forma diferente. Quer dizer: nada há de mais concreto do que a questão da liderança.