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O populismo à espreita

O populismo à espreita

A propósito de factos recentes, várias vozes se têm erguido na denúncia do perigo populista. Creio que têm razão. A ameaça existe e tem de ser combatida. Para o que precisamos de profundidade na compreensão e firmeza na reação. Quatro elementos compõem a atitude populista. O primeiro é a oposição radical entre "nós" e "eles": nós, que supostamente formamos, por qualquer laço primordial, uma comunidade homogénea, e os outros que estão fora. Mesmo quando não é xenófobo, e portanto aceita o direito de os outros ocuparem o mesmo espaço que nós, o populismo olha-os de soslaio e com suspeita, em particular quando acredita que eles têm oportunidades e regalias específicas. Quer sejam os agricultores de Montalegre contra os doutores de Lisboa, ou os pobres honrados contra os "ciganos" do rendimento mínimo, ou as famílias remediadas contra os "milionários" das pensões do Estado, ou os zés-ninguéns contra os ricos que fintam a Justiça, o traço é o mesmo: a barreira intransponível entre os de dentro e os de fora, os de baixo e os de cima, os da norma e os da exceção, como se fossem mundos separados e incomunicáveis.

O segundo elemento é a definição emocional do "nós". O "povo" de que se reclamam os populistas não é um grupo social mas um estado de espírito, não é uma condição mas uma exaltação. Por isso, o raciocínio crítico, que contextualiza, relativiza e gasta tempo, é considerado uma traição. Veja--se a ideia de publicitar os contactos dos condenados por pedofilia: a reparação devida aos sentimentos de repulsa e alarme dispensaria o raciocínio básico de que, se a lei não prevê a prisão perpétua, não pode a administração instituí--la por porta travessa. Para os populistas, a indignação é suficiente, e o pensamento pernicioso.

O terceiro elemento é o desprezo pelas mediações, que obstam à materialização instantânea da emoção. Falo das regras e dos quadros institucionais que obrigam à argumentação e à prova, que introduzem distância entre o juízo e a coisa julgada, que requerem procedimentos objetivos e normas impessoais. Julgue-se sumariamente e sem apelo, condene-se o comportamento pelo seu valor facial, sem apurar de razões, sejamos nós ao mesmo tempo os ofendidos e os punidores. Para os populistas, as mediações e os mediadores - como o direito, o sistema político, os meios académicos e profissionais - são, no mínimo, dispensáveis e, no máximo, inimigos. São os de Lisboa contra o país, os da política contra o povo, os corrompidos pelas glórias e os benefícios do poder contra a pureza primordial da arraia-miúda.

Por isso, o último elemento da atitude populista é a substituição de toda a representação mediada e limitada pela representação imediata e absoluta, encarnada em líderes "puros", sem baias institucionais, que encarnam o povo porque são da sua natureza. Ou porque nasceram em Penamacor ou Santa Comba, ou porque só iam fazer a rodagem do carro, ou porque se viram ricos em Bruxelas para defender o povo contra Bruxelas, ou porque também não conseguem dormir sem saber se há um pedófilo no prédio.

Como se vê, o populismo situa-se nos antípodas da preocupação e do respeito pelo povo. O populismo expropria o povo do raciocínio, nega-lhe discernimento e pede-lhe adesão exaltada, sem medida nem escrutínio. Desde o surgimento da comunicação de massas, ele propaga-se com força, através da Imprensa dita popular, da televisão generalista e de cadeias de rádio religiosa ou ideologicamente comandadas. Também o temos em Portugal. E, de certo modo, habituámo-nos a ele. Até condescendemos, se bem que não devêssemos.

Mas o que talvez explique o recente sobressalto contra o populismo é a constatação da força com que ele vem penetrando no coração dos sistemas político-partidário e político-judicial. E o que é mais de lamentar é que, no primeiro caso, seja através do PS, pela mão de António José Seguro e que, no segundo, seja patrocinado pela própria ministra da Justiça.

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