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Opinião

A morte da diversidade

A morte da diversidade

Já ouviu falar das comunidades cristãs no Iraque? Não? Então, o meu conselho é que se apresse, porque dentro em pouco quase não existirá nem uma para amostra. Antes da invasão do Iraque, em 2003, eram mais de um milhão e meio. Agora, pouco mais do que 300 mil, e com tendência para depressa serem muitíssimo menos.

A população cristã no Iraque é das mais antigas no Mundo, havendo registo de que, logo no século II, ali se foram implantando, instalando ao longo dos séculos centenas de igrejas e mosteiros no território.

Não deixa de ser trágico que, depois de no último quartel do século XX, terem sido os judeus obrigados a fazer as malas devido à perseguição sem dó nem piedade que lhes moveu Saddam Hussein, os cristãos pareçam estar perante destino similar. É verdade que, em geral, os iraquianos têm sofrido como poucos. Desde a guerra contra o Irão (entre 1980 e 1988), com efeito, sucederam-se os conflitos, as sanções internacionais cegas que tudo devastaram menos quem tiranicamente governava, a invasão de 2003 e agora os bandoleiros chefiados por um alucinado sem dó nem piedade que invoca ser califa. Não é menos certo que os cristãos do Iraque foram quase sempre apanhados no meio do conflito mortal que opõe sunitas a xiitas (os curdos, de vez em quando, também participam). E, como comunidade minoritária, quase sempre pagaram mais do que as maiorias absolutas ou as maiorias relativas.

Agora, parece ser de vez. Em Mossul, ocupada pelas forças do tal califado a que todos se vão habituando, os cristãos tiveram perante si a seguinte opção: ou a conversão ao Islão em 24 horas, ou o pagamento de um imposto, ou a morte (porque cristão que quiser continuar a sê-lo passa a ser um "alvo legítimo", no entender daqueles facínoras). Bela opção, como se vê, sobretudo porque o pagamento de um tributo depressa saiu do lote das escolhas. Aqueles que puderam foram para o mais longe possível, deixando todos os bens. Aqueles que não puderam, foram mortos, agredidos ou violados. Hoje, pensa-se que não residam em Mossul mais de vinte famílias cristãs. Com toda a certeza, porque não conseguem fugir.

É curioso que a nossa reação a estes factos seja mínima ou de bem menor indignação, quando comparada com a que sentimos relativamente a outros grupos minoritários ou que sejam alvo de violência. Porque não há vídeos ou fotografias que nos façam palpitar as emoções? Porque na sociedade em que vivemos os cristãos são maioritários?

O secretário-geral das Nações Unidas indignou-se, mas indigna-se quase todos os dias. O Papa Francisco falou dos cristãos do Iraque. E bem fez a Organização de Cooperação Islâmica que, denunciando a perseguição, afirmou que estes comportamentos "não têm nada a ver com o Islão e os seus princípios de tolerância e coexistência".

E num plano político? Nada ou quase nada, e em certos casos até teria sido melhor que nada fosse. Em França, saltando sobre esta "feliz" oportunidade de ganhar visibilidade, a extremista Frente Nacional que agora quer parecer moderada organizou uma manifestação a favor dos cristãos do Iraque. Logo o Governo francês, para não perder o comboio, declarou que estava disposto a conceder asilo político aos cristãos iraquianos, supondo, se calhar, que estes se deslocam de avião para Paris. Mas, sejamos justos, pelas boas ou más razões (e se calhar estou a ser injusto), disse alguma coisa. Quanto ao resto? Nada. É como se aquela gente fosse invisível.

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O nosso Mundo tem muito mais estados do que há cem anos. Ainda bem, se pensarmos por exemplo nos povos colonizados que acederam à independência. Mas, estranhamente, é um Mundo com cada vez menos diversidade e possibilidade de convivência com a diferença religiosa, étnica, linguística ou outra.

Voltando aos cristãos do Iraque, não estaremos implicitamente a entender que lá como noutros sítios a diversidade religiosa é um mal, mais valendo que um território acabe por ficar religiosamente "puro" (isto é, só com uma religião) para diminuírem os problemas e os conflitos?

Abrindo o jogo, digo ao leitor aquilo em que acredito: ser cristão, como ser muçulmano ou judeu ou ateu ou agnóstico não pode representar vantagem, mas não deveria ser um ferrete ou uma inconveniência cobrada tantas vezes com a vida ou a segurança do "diferente".

Este século XXI anda de facto com pouco tino. E nós não andamos muito melhor.

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