Opinião

Jogo de sombras à moda ucraniana

Jogo de sombras à moda ucraniana

Parece que a Ucrânia está mais calma, depois do incêndio da última semana. Parece. Porque as notícias que de lá chegam dão conta do derrube de um regime, e de um novo regime que ainda não sabe bem o que fazer com o poder que agora tem nas mãos. E não sabe, sobretudo, porque no essencial o poder não é o que agora caiu; é aquele que o sustentava e agora se mudou de armas e bagagens para os que agora pensam que mandam. Em terras ucranianas, e mais uma vez, jogos de sombras em que os desfechos podem ser, e quase sempre são, algo diferentes daquilo que pensamos.

O mesmo Parlamento que até há dias servia com docilidade Ianukovitch decidiu "heroicamente" a sua destituição. As heroicas chefias da polícia, que há dias comandavam aqueles que disparavam sobre os manifestantes na Praça da Independência em Kiev, apareceram agora a virar a casaca na televisão, declarando, obviamente, estarem ao lado do povo. Iulia Timochenko, a grande rival do agora presidente destituído, foi libertada depois de trinta meses no cárcere. E, como é claro, o destituído diz que isto tudo é um golpe e que não renuncia.

Por seu turno, o MNE polaco, Radoslaw Sikorski, lança eufórico no Twitter (no Twitter!) que não houve golpe coisíssima nenhuma, e declara, em jeito de ultimato, que Ianukovitch tem 24 horas para validar o regresso à Constituição de 2004. Logo a seguir, a mesma Polónia declara reconhecer... as novas autoridades. Confuso? Pois, no mínimo.

A Rússia, até ver, sofre um duro golpe. "Sem" a Ucrânia, vale muito menos, quase fica pequena. E a Rússia não consegue esquecer que a "sua" Crimeia lhe foi retirada por Krutschev e "doada" à Ucrânia (claro que quando a URSS ainda se tinha como eterna).

Há aqui muita História, demasiada História. Lviv, por exemplo, foi polaca durante quatro séculos, até ao último quartel do séc. XVIII; foi depois austríaca, até ao fim da Primeira Guerra; voltou em 1919 à Polónia; e foi integrada na Ucrânia em 1939. E outros casos se poderiam arrolar. Por isso, evidentemente, muitos temem que, num país com dois grupos muito fortes ("europeus", por um lado, "russófonos", por outro), o tempo apenas se traduza em, de forma alternada, fazer um prevalecer sobre o outro. Pagando o outro com língua de palmo.

Sejamos otimistas. Aceitemos, por enquanto, que a nova ordem que se desenha conseguirá não ser controlada pela oligarquia reinante; que não se repetirá a corrupção em larga escala que Ianukovitch deixou que se instalasse e com que muito beneficiou (o seu filho ganhou o ano passado 50% de todos os concursos públicos); que os ditos russófonos não vão sofrer represálias; que não se concretizam pulsões separatistas ou até independentistas; e que, com o apoio da União Europeia, a economia ucraniana consegue superar as graves dificuldades com que se debate.

Ainda assim, por favor, tenha-se a decência de evitar falar (também neste caso) em revolução popular. Houve povo a lutar? Houve, com certeza. Houve naquela Praça da Independência pessoas que deram a sua vida por uma liberdade em que acreditavam? Houve, estou certo. Porém, no essencial, o jogo foi jogado fora daquele campo, em bastidores muito menos heroicos e de muito maior cupidez. C'est la vie.