Opinião

Os 700 de Kobane

Desde que começou a guerra na Síria, calcula-se que possam já ter morrido 200 000 pessoas. A destruição do país é incalculável e, em alguns domínios (como o património cultural) irreversível.

Os refugiados e deslocados internos são já vários milhões, um gigantesco desastre humanitário. Entretanto, Bashar el-Assad mantém-se no poder, e os terroristas do "Estado" Islâmico (EI) têm encontrado naquele território o fôlego e base de que precisam para, por exemplo, tentarem também pôr o Iraque a ferro e fogo. Acompanham a linha do Eufrates, têm financiamento farto, têm armamento que, retoricamente, se pergunta de onde pode vir e gostam muito de matar. Gostam mesmo muito.

Neste momento em que escrevo, podem estar a horas de conquistar Kobane, uma cidade síria de maioria curda mesmo junto à fronteira turca. Poder-se-á no entanto perguntar qual a razão para tanto clamor por causa de Kobane e, aliás, o que distingue esta cidade de tantos outros locais em que os terroristas têm praticado, de forma reiterada, atos que envergonham a Humanidade. É verdade, o que o EI está a fazer com o cerco a Kobane é, de alguma forma, similar ao que fez em Mossul ou ao que continua a fazer nas zonas por si controladas na Síria ou no Iraque. Mas, ainda assim, Kobane é, pelo seu contexto, distinta e especial.

É-o desde logo porque, caindo a cidade, o EI passará a controlar aproximadamente 40% do Curdistão sírio. É-o, além disso, porque demonstrará que, apesar dos ataques aéreos de que tem sido alvo por parte dos Estados Unidos e de outros países, não só não tem perdido especial capacidade militar como, mantendo-a, derrota as forças curdas, das mais bem treinadas e eficazes da região. Mas Kobane é especial, principalmente, por ser a chaga viva que põe a nu a incrível hipocrisia da Turquia.

Hoje, a esta hora, e depois de quase todos os seus habitantes civis terem fugido da cidade e estarem concentrados junto à fronteira turca calcula-se que ainda lá permaneçam 700 civis curdos e aqueles que, também curdos, combatem desesperadamente o avanço inexorável e sufocante do EI. Hoje, todos ou quase todos sabem que, quando o atacante conseguir vencer, todos ou quase todos serão massacrados.

A Turquia, depois de o seu Parlamento ter autorizado ações militares em território sírio, tinha perante si o dever de Humanidade de não assistir impávida ao que está a acontecer, em direto, a cores e à vista desarmada. Tinha o dever de permitir que, a partir do seu território, pudessem acorrer em defesa de Kobane curdos turcos ou que, também a partir da Turquia, pudessem ser fornecidas armas e apoio à cidade. Mas a Turquia não vai intervir, e as suas fronteiras estão fechadas para aqueles que querem ir combater ao lado dos seus irmãos, amigos e parentes contra os bandidos sanguinários do EI.

Gélida, a Turquia diz que o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), sendo terrorista, é igual ao EI. Sem vergonha, a Turquia afirma, através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, que se permitisse que civis fossem combater em Kobane estaria a cometer um crime. Gélida, a Turquia refuta todos os apelos internacionais (incluindo das Nações Unidas) para ajudar ou deixar outros ajudarem. Os seus tanques, alinhados ao longo da fronteira junto a Kobane, assistem serenos ao espetáculo dantesco da morte de uma cidade e da morte certa daqueles que de lá não conseguem fugir.

Porque a Turquia, gélida, consegue assim uma vantagem: destrói a capacidade militar dos curdos na Síria e assim aumenta o seu poder. Dá uma "lição" aos curdos, mas poderá dizer que não foi ela, foram os do EI. Depois, mas só depois, a Turquia vai intervir: porque o EI terá conseguido uma posição estratégica fundamental e poderá começar a querer lançar-lhe as suas garras.

Os 700 de Kobane, esses, já terão morrido às mãos do EI. Mas não só, porque outros terão as mãos manchadas de sangue.

Nota: Jorge Fiel decidiu exibir publicamente o seu poder e dedicou-me neste jornal mais um texto empastelado, arrogando-se em herói que resiste ao "bullying" sobre os jornalistas e os jornais. Por mim, mantenho tudo o que disse no meu direito de resposta: a historieta de Jorge Fiel era mentirosa e mentirosa continua. Mas vê-lo ter o topete de invocar "bullying" (!) é mais ou menos igual à história do brutamontes da escola que vai ter com a professora a fazer beicinho, queixando-se de que tem muito medo do caixa-de-óculos lingrinhas da turma ao lado. Patético.