Opinião

São (só) assassinos

Os ataques de Paris têm efeitos devastadores para aqueles que neles pereceram, ficaram feridos ou estropiados ou perderam entes queridos. Mas são também ameaçadores para o nosso modo de vida, para a tolerância da diferença e para uma certa ideia de liberdade.

Neste momento de sofrimento e destruição, é nosso dever reiterar com maior ou menor solenidade que não temos medo e queremos enfrentar, serenamente, estes cobardes. Fica-nos bem, mas é pouco eficiente.

Mais perigosas são duas outras tendências que saltaram da toca na sequência deste atentado que, como logo se adivinhou, é assinado pelo "Estado" "Islâmico". Uma delas, a tese de que estamos a ser demasiado brandos com o terrorismo, que se impõem medidas especialmente musculadas, do género da que logo e gulosamente propôs Marine le Pen, de retirar a nacionalidade francesa a quem venha a estar envolvido em organizações terroristas. Ou de fechar de vez as fronteiras. Ou do que fez a Polónia que, sem esperar sequer que em Paris os corpos arrefecessem, anunciou que não ia acolher os refugiados a que se tinha comprometido perante a União Europeia.

Nos próximos dias, vamos também assistir às associações as mais ambíguas e em alguns casos a roçar a obscenidade entre terrorismo e refugiados, entre Islão e "Estado" "Islâmico". E vamos também voltar a ouvir falar em "atos de guerra" ou "atos de agressão" sobre aquilo que são crimes, com as consequências desastrosas e absurdas que já foram testadas pelos Estados Unidos, como a deriva grotesca da tortura legitimada.

É certo como o destino, haverá também aqueles que condenam os ataques, lançando no entanto sempre um mas. É horrível... mas é preciso estudar as causas (e eu respondo: é só horrível). É totalmente condenável, mas "nós" também temos culpas (e eu respondo: só aceito o totalmente condenável). Ou seja, o relativismo complexado mais revoltante.

Ou destruímos a realidade e o símbolo "Estado" "Islâmico", ou ele destrói aspetos fundamentais da nossa vida em sociedade. E a sua destruição passa pelos combates na longínqua Síria e por aceitar que, se calhar, os russos têm alguma razão. Mas passa também por encararmos estes canalhas pelo seu valor facial: são (só) assassinos, são (só) criminosos, não são "combatentes". Não lhes façam, por favor, o imenso favor de os glorificar.

Passa por encararmos estes canalhas pelo seu valor facial: são (só) assassinos, são (só) criminosos, não são "combatentes"