Opinião

Pedro, Vítore Paulo: uma relação improvável

Pedro, Vítore Paulo: uma relação improvável

Pedro e Paulo fizeram Governo. Pedro agora detesta Paulo, que detesta Pedro. Pedro gosta imenso de Vítor, que imenso gosta de Pedro. Por isso, Paulo detesta Vítor e Vítor detesta Paulo. Pedro e Vítor têm um divertimento: humilhar publicamente Paulo. De cada vez que o diminuem, reforçam o quanto gostam um do outro: unem os seus destinos. Para mal de Paulo.

Uma história tíbia? Não, tão-só uma síntese caricaturada da coligação que assegura o Governo de Portugal. Nada disto interessa, dirão alguns. Enganam-se. Porque o exercício do poder muito depende de uma dimensão pessoal que pode pôr em causa, e de que maneira, a eficiência da ação governativa.

O perdedor tem sido Paulo Portas. Entrou para o Governo sem clarificar o que para si era inegociável e terá congeminado que Passos Coelho, imberbe nas coisas da governação, agradeceria a sua maior experiência e agudo faro político.

Erro de avaliação. Porque Passos, antevendo o risco, logo lhe fez marcação cerrada, para o colocar no "seu" sítio.

Portas cometeu um segundo erro: subestimou Vítor Gaspar, lá onde devia tê-lo temido mais. Porque Gaspar viveu sempre arredado do Mundo, com as luzes de néon suave dos gabinetes e o computador como companhia: e por isso mais adora o sabor doce da ribalta. É como aqueles adultos que, nunca tendo namorado ou feito tolices na adolescência, vêm a descobrir os prazeres da vida em momento tardio. Nunca teve poder, só influência. Agora, cada clamor da rua, cada parangona dos jornais ou debate parlamentar o exaltam: porque os cidadãos são para si coisas vagas que mexem, berram e às vezes até choram. Aproveita gulosamente cada segundo. Ama este poder, sabendo-o transitório. A sua fragilidade política é, afinal, a sua força: não precisa de mais.

Passos Coelho admira Vítor Gaspar sem reservas: é o seu fiador internacional. Pressente que só através dele realizará o sonho algo infantil e muito difuso de um "novo" Estado (não de um Estado Novo).

São os dois jogadores de tudo ou nada: para eles, o razoável é nada.

PUB

Para os dois, o interesse nacional é prosseguido de fora para dentro; Paulo Portas, por formação e convicção, acredita que é de dentro para fora. Acham que a soberania, coisa velha e nada moderna, só atrasa; para Portas, esse é o caminho do desastre.

Hoje, enfrenta um dilema torturante. Ficar nestes termos, não pode. Mas não pode sair. Se a "direita" lhe pertencia, vê-se agora à "esquerda" de Passos Coelho. Se foi a novidade na política, a "juventude" (agora, radical e impiedosa) é personificada no primeiro-ministro.

Passos Coelho acha-se movido por um desígnio superior e quer ficar na história com esta governação. A Portas, aterra-o o ferrete da história com tal legado. Para Passos, a destruição é criadora de vida, regenera. Portas, bem mais realista, cheira o colapso ao virar da esquina da "refundação".

Anseia pelo seu momento. Mas esse dia poderá também ser, como nos enredos policiais, o do álibi de Pedro e Vítor. Porque nessa altura dirão: "Tudo tentámos, tudo lutámos. Mas Paulo não deixou".

Acabará assim a estória? Não creio.

Porque Passos Coelho, também ele, comete um erro de palmatória: subestima Paulo Portas. Iludido, pensa que o domesticou. Puro engano. Passos tem perante si um extraordinário resistente e, de longe, o mais experiente político no ativo. Já tropeçou, sempre se reergueu renascido. Mestre virtuoso na paciência e na arte do possível, regista a fogo cada desconsideração, para balanço futuro e cobrança com juros.

Por isso, está por saber se Paulo Portas fica ou sai. A ficar, ficará muito melhor do que por ora está. E, se ou quando disser adeus, a sua não será a saída pequena. Os primeiros sinais já aí estão. Ainda há menos de dois dias, o líder do CDS avisou: "A nossa voz não foi suficientemente ouvida. No próximo Orçamento esta situação não se vai repetir"; e "as reformas são necessárias, mas não é para chegar a qualquer Estado mínimo".

Pois é. Cá se fazem, cá se pagam.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG