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Temos nozes mas andamos a perder os dentes

Temos nozes mas andamos a perder os dentes

Qualquer dia, estão aí as eleições europeias. E, ou muito me engano, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Começará a procurar antever-se se a taxa de abstenção vai ser magra ou gorda, ou muito gorda. Se vai ultrapassar, ou não, a das últimas eleições. Vai também discutir-se, com certeza da forma o mais sábia possível, se é desta que as temáticas tratadas pelas principais candidaturas vão ser "europeias", só "nacionais" ou "mistas".

Quem tiver alguma memória recordará que este tipo de discussão é, quase sempre, muito esclarecido e não menos elaborado. Mas também saberá que, como o pêndulo daqueles relógios antigos de sala, se repete de quatro em quatro anos. Depois das eleições - e, nas europeias, ainda mais do que nas restantes - o tal relógio de sala fica parado e vai ganhando poeira. E, antes das seguintes, alguém o põe em marcha. E assim, incansavelmente, de quatro em quatro anos.

Por que é que votamos pouco? Por que é que, de alguma forma, ficámos anafados ao ponto de não exercermos este direito fundamental decisivo para a qualidade democrática da nossa sociedade?

Também aqui, as respostas são muitas, sistémicas ou nem tanto. Votamos pouco porque, dizem alguns, as propostas que temos expostas nos boletins de voto não têm qualidade suficiente. Ou porque o descrédito daqueles que pretendem ser nossos representantes é suficiente para nos desmotivar. Ou porque, dizem outros, nas democracias consolidadas este comportamento abstencionista é normal e, no limite, saudável. Ou, então (de facto, há para todos os gostos), porque em tempos de globalização as sociedades estão cada vez menos estruturadas, as pessoas cada vez mais sofridas e afastadas da coisa política. Assim, perante o fosso criado entre quem detém o poder e os cidadãos, respondem estes recusando legitimar, com o seu voto, aqueles a quem, seja como for, já nem sequer reconhecem legitimidade formal.

Esta angústia democrática contrasta, curiosamente, com outras paragens. Por exemplo, com o Afeganistão, onde ontem decorreram eleições destinadas a escolher um novo presidente.

Votar no Afeganistão não é como entre nós: nem coisa que se pareça. Votar no Afeganistão não é escolher entre o sofá ou o passeio, por um lado, e, por outro, darmo-nos à maçada de encontrar a mesa onde votamos. Votar no Afeganistão significa arriscar a vida às mãos dos talibãs ou de outros facínoras que declararam uma guerra sem quartel a este sufrágio. Votar no Afeganistão, e mais ainda se se for mulher, é enfrentar ameaças, é enfrentar represálias, é estar na fila para votar e poder ir pelos ares se algum bombista-suicida alucinado escolher aquele momento e aquele lugar para ficar em pedaços e levar com ele o maior número possível de vítimas. Porque sim. Porque, para si, essa é a forma mais espetacular e eficiente de servir Alá.

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É justo que, do alto da nossa confortável distância, achemos que isso é uma selvajaria. Até nos fica bem.

No entanto, nada de tudo isto explica grande coisa. Os afegãos vão votar, custe o que custar, porque na sua desgraça sabem que ficar outra vez sob a canga dos talibãs será sempre infinitamente pior do que a democracia frágil que têm. Sabem que, se não votarem, perdem muito mais: perdem a dignidade de ser cidadãos e a possibilidade de lutarem, dia após dia, para conservar esse estatuto. Esse mesmo estatuto de cidadania por que tantos morreram nos últimos séculos, um pouco por esse Mundo fora.

E nós? Nós, não precisamos, porque já somos cidadãos evoluídos e achamos impensável que essa cidadania esteja em risco (embora possa estar). Muitos de nós até sofrem, e quanto!, num quotidiano que parece infindável. Mas, ao mesmo tempo, estamos anafados. Se pensássemos que a democracia tem de comer para viver, e que seu alimento é o boletim de voto, do famoso e do anónimo, do pobre e do rico, do desempregado como do reformado, talvez pensássemos duas vezes antes de lançarmos o típico "desta vez, não me apetece lá pôr os pés, são todos os mesmos".

Porque, aos costumes, não fazer nada costuma ser uma receita infalível para nada conseguir.

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