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Vistos não-tão-gold-assim

Os vistos gold sempre foram muito questionáveis. Comprar a cidadania portuguesa (e, portanto, europeia) com transferência de capitais ou aquisição de um imóvel de, pelo menos, quinhentos mil euros, chega a ser imoral. Sobretudo, numa Europa que deixa morrer migrantes, todos os dias, afogados no Mediterrâneo. Já para não falar de que é uma brecha, muito conveniente, para facilitar a entrada de todo o tipo de magnatas de condutas questionáveis, a quem interessa mudar de nacionalidade, como aconteceu recentemente com Roman Abramovich - o mais rico cidadão português da atualidade.

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A voragem

Na era da hiperprodutividade, do FOMO e da permanente ligação ao Mundo é difícil desconectar, ainda que por poucas horas. Mesmo nas férias. Parar obriga a fechar o telefone a sete chaves, porque deixou de haver pessoas incontactáveis e todos se acham no direito de cutucar a qualquer hora, por qualquer coisa, mesmo que pudesse esperar. Para pessoas ansiosas é quase impossível ensaiar a preservação da homeostasia. Vive-se na antecipação, na voragem da permanente novidade de que é preciso estar a par e sempre que se adia a resposta ao estímulo é com culpa ou incómodo.

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A beleza

Finalmente consegui ver a peça "Catarina e a beleza de matar fascistas", de Tiago Rodrigues. Entrei no Teatro Nacional São João com muita curiosidade (após uma longa espera pela oportunidade) e saí como de um atropelamento. Foi uma experiência emocionalmente muito intensa, como só as grandes obras de arte conseguem proporcionar, mas foi igualmente intensa no plano ideológico, no confronto de ideias e argumentos, como se tivesse saído de um debate de duas horas e meia, exausta e com a cabeça em confrontação.

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Urgência obstétrica

Muito se tem escrito sobre a falta de médicos para garantir urgências de obstetrícia. Proliferam notícias em todos os meios e na última semana o país despertou para o problema. É certo que é assunto sério e que merece toda a nossa atenção e pressão política, mas importa também salvaguardar que no privado a coisa não é melhor. Não só para não servir os interesses dos grandes grupos de saúde privada, que nestas ondas de indignação têm marketing garantido, como também para relembrar que, apesar das dificuldades, o SNS é bem capaz de ainda ser a melhor opção para quem quer parir em segurança.

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Paula Rego

Paula Rego é eterna. Não podemos pensar a cultura portuguesa sem ela. Sem o seu olhar distanciado (de quem migrou há muito para outro país), mas sobretudo sem a intimidade de quem conhece os cantos mais sujos da casa. Fez questão de dizer que estava algures no meio do caminho. E, pensado bem, o meio do caminho era o seu lugar de fala, com os pés fincados entre a rudeza da realidade e as possibilidades da fantasia, entre a história e as estórias, entre as dores do corpo e a liberdade do espírito.

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O fresco de Pomar

Setenta e cinco anos depois da PIDE mandar cobrir os frescos de Júlio Pomar no cinema Batalha, eles são recuperados, graças à ciência e seus infinitos recursos químicos. Um mural sobre o São João, que no mês de junho reaparece para repor à cidade o que sempre lhe pertenceu. Um mural que foi silenciado não por ter um conteúdo antifascista, mas por ter sido feito por um antifascista. Um exemplo do silenciamento violento e absurdo com que o Estado Novo impunha as suas arbitrariedades. Que em breve poderemos visitar no renovado cinema.

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Velhas dependências

A pandemia já havia relegado para segundo plano as políticas de combate às alterações climáticas pelo Mundo inteiro. A urgência da crise de saúde pública sobrepôs-se a tudo e a crise económica consequente parece ter acentuado a lógica imediatista da governação, em detrimento de políticas mais focadas no médio/longo prazo. Não deixa até de ser paradoxal, visto que há muito quem considere a pandemia como sendo uma consequência do desequilíbrio dos ecossistemas, mas o controlo do vírus e a recessão fizeram adiar mais uma vez as teóricas intenções de mudar de rumo.