Imagens

Últimas

Capicua

A turba

O processo de degradação de uma democracia envolve muitos e complexos fatores, várias etapas, dinâmicas que se vão instalando e uma progressiva acomodação das novas normalidades, para que, como hábito, se instale um novo paradigma. A história da última década no Brasil é exemplo disso e, até por cá, houve quem engrossasse o coro de legitimação do impeachment de Dilma (rejeitando a palavra "golpe"), de normalização do candidato e depois presidente Bolsonaro, como um "mal menor", em contraponto a Lula e ao PT (devidamente demonizados), e até quem adotasse o seu jargão, importando expressões como "ideologia de género" ou "marxismo cultural".

Capicua

Rosalía

No Instagram, mil fotografias e vídeos do concerto da Rosalía em Lisboa. Relatos entusiasmados, boas críticas e ecos de uma ótima noite. Nada mais distante da minha experiência, dois dias antes, em Braga. Fiquei na dúvida. Terá sido mesmo assim e bastou mudar de sala para melhorar muito a qualidade do espetáculo? Terei sido só eu a desgostar e há uma espécie de desencontro entre este tipo de concerto e as minhas expectativas? Ou é simplesmente a ilusão de perfeição que se projeta nas redes sociais e estas pessoas sentiram o mesmo que eu?

Capicua

Vitória (mas pouca)

Lula venceu por um triz. Uma margem de dois milhões e pouco de votos, não chegando sequer aos 51%. A eleição foi tão disputada que houve duas cidades em que a diferença de votos foi de um. Vencer ou perder por um voto é mesmo uma realidade. Apesar de muitas vezes parecer retórica de noite eleitoral. E ainda que esteja aliviada com a eleição de Lula da Silva, não consegui celebrar a vitória, precisamente porque não me parece uma vitória. Se pensarmos que Haddad perdeu em São Paulo e que, tal como já tinha acontecido no Rio e na maioria dos estados, os bolsonaristas venceram. Se pensarmos na quantidade de lugares que os bolsonaristas ganharam no Senado. Se pensarmos que foram mais as cidades onde Bolsonaro venceu do que as que perdeu. E se pensarmos no bolsonarismo que, entretanto, se estabeleceu na máquina do Estado, na toxicidade do debate público, na lógica armamentista de disseminar a violência sob a desculpa da autoproteção, percebemos que o Brasil é um país inquinado, dividido ao meio e que Lula terá um trabalho muitíssimo difícil.

Capicua

Carta ao ministro da Saúde

Senhor ministro, enquanto mulher, mãe, cidadã e contribuinte escrevo-lhe esta carta aberta, com toda a preocupação e na esperança de que possa tomar a melhor decisão política, apesar do parecer técnico da Comissão de Acompanhamento responsável pelo estudo da situação das urgências obstétricas em Portugal. A Comissão, composta apenas por representantes das administrações regionais (quase todos homens) e sem qualquer representação de associações de utentes, de associações de defesa dos direitos das mulheres na gravidez e no parto, de obstetras, anestesistas, pediatras ou EESMO, e cuja proposta de solução para o problema das urgências obstétricas passa por fechar maternidades, não representa de forma nenhuma os interesses certos.

Capicua

"Boa sorte, Leo Grande"

Há poucos dias fui a Lisboa a trabalho, com a agenda do dia cheia para rentabilizar a viagem. Durante o almoço recebo um SMS a cancelar um dos compromissos praticamente em cima da hora. De repente, num dia que se esperava cheio, ganhei duas horas livres a meio da tarde. Noutra altura da minha vida ficaria incomodada com o imprevisto e tentaria a todo o custo canalizar o tempo para outras tarefas, como responder a emails ou pagar as contas do mês. Mas desde que fui mãe, ganhar duas horas a meio da tarde é motivo de fruição. Fui ao cinema!

Capicua

Brasil

A esperança de que Lula fosse eleito à primeira volta não se verificou. Bolsonaro ficou bem acima do que indicavam as sondagens e, apesar do segundo lugar, o bolsonarismo venceu no Senado, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Minas Gerais e conseguiu a eleição de muitos deputados. O mapa do Brasil está dividido a meio. Nos estados mais pobres e nos extratos mais baixos da população tudo é vermelho. No Sudeste e na classe média, alta e muito alta, o voto é para o atual presidente. A tensão cresce muito e temo que as longas quatro semanas de campanha que agora começam tragam ainda mais polarização e casos de violência.

Capicua

"Aquário"

Hoje é um dia importante na minha vida e, longe de querer cair na autopromoção (um dos mais irritantes tiques do nosso tempo), venho dizer-vos que o meu primeiro livro chegou às livrarias. Estou, obviamente, muito feliz. É uma daquelas vitórias pessoais de pôr medalha imaginária na lapela, mas é também o fechar de um ciclo muito marcante de seis anos de crónicas quinzenais na revista "Visão". Sendo o livro uma seleção das minhas crónicas favoritas, com outros pequenos textos inéditos, poemas e algumas letras, escritos entre 2015 e 2021.

Capicua

Oitenta

Caetano Veloso fez 80 anos e eu fiquei até de madrugada a ver na Globoplay o concerto comemorativo que deu com os seus três filhos (Moreno, Zeca e Tom) e sua irmã Maria Bethânia. Foi tão emocionante que, quando acabou, tive dificuldade em serenar o coração para encontrar o sono. Que bênção poder ver em tempo real, ainda que online, aquele momento acontecer. Aquela representação da Beleza. Aquela celebração da Vida e da Família. Que bênção ser contemporânea de tamanho Talento.

Capicua

A propósito da Semana Mundial do Aleitamento Materno...

Amamentei o meu filho por dois anos e três meses. Não foi fácil. Arrisco dizer que, no início, quase nunca é, porque a adaptação inicial é complexa e necessita muitas vezes de ajustes e ajuda especializada. É tudo muito menos intuitivo do que se possa pensar. Além de que compromete muito a nossa liberdade de ir e vir (e isso nunca é de somenos, sobretudo no primeiro impacto com a experiência da maternidade). Já para não contar os muitos episódios de ingurgitamento mamário e pré-mastites que tive e que só foram controláveis (e ultrapassados por mim própria) porque comecei muito bem informada e munida de muitas dicas úteis de gente especializada. Aliás, nisto da maternidade (do parto a tudo o resto), a informação é a maior chave para a nossa autodeterminação. Além, obviamente, da rede de apoio (que tive sempre).