Opinião

A beleza

Finalmente consegui ver a peça "Catarina e a beleza de matar fascistas", de Tiago Rodrigues. Entrei no Teatro Nacional São João com muita curiosidade (após uma longa espera pela oportunidade) e saí como de um atropelamento. Foi uma experiência emocionalmente muito intensa, como só as grandes obras de arte conseguem proporcionar, mas foi igualmente intensa no plano ideológico, no confronto de ideias e argumentos, como se tivesse saído de um debate de duas horas e meia, exausta e com a cabeça em confrontação.

A arte pode ser muitas coisas, sendo antes de tudo um supremo ato de liberdade. Ora, quando nos remexe assim nas entranhas, quando nos revolve assim a massa cinzenta e quando nos perturba o corpo e o espírito com a mesma intensidade, sem nos tocar com um dedo, só com palavras e imagens, com corpos e vozes, com intenção e coragem, estamos perante uma das suas possibilidades mais poderosas, a instigação. E "Catarina e a beleza de matar fascistas" instiga-nos a pensar em liberdade. No seu preço, no seu custo, no seu valor, na sua sacralidade, nos seus limites, nas suas nuances, na sua partilha, no seu passado, na sua hipótese de futuro, nas suas contradições, na sua ambivalência, nas suas conquistas e fracassos e, sobretudo, na sua fragilidade.

É a velha discussão sobre os meios que são (ou não) justificados pelos fins, sobre a validação da violência quando esta é posta ao serviço do bem, questionando se isso não é precisamente a sua capitulação, sobre a distinção entre justiça e vingança, sobre se o valor das vidas que doamos às causas ou que perdemos para as injustiças é mensurável na comparação com o valor das vidas daqueles que nos oprimem. Mas é ainda mais uma reflexão sobre o nosso tempo, sobre o nosso mundo, sobre o nosso futuro e a forma como combatemos o regresso dos velhos fantasmas do passado, cada vez mais vivos.

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Os atores, a cenografia, a música, é tudo excelente, mas o texto é exemplar. Vai crescendo, no confronto das ideias e dos argumentos (sempre incisivos), emociona muitas vezes (a mim sobretudo enquanto mulher), faz rir, faz rir de nervoso, exaspera no monólogo final, ao ponto do público gritar e algumas pessoas saírem da sala, precisamente porque nos confronta com as grandes questões do nosso tempo, de uma forma tão vívida e esmagadora, que é difícil não quebrar. Por tudo isso, é tão duro quanto necessário. Além de tudo, porque é de uma beleza extraordinária estar perante uma obra de arte. E, para mim, que ando bastante desinspirada, sentar-me sob a abóbada daquele lindíssimo teatro (onde num dos cantos diz POESIA e no outro diz MÚSICA) para ver aquele espetáculo inesquecível, foi providencial.

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