Opinião

Desassossego

Os quarenta anos sobre a primeira edição do "Livro do desassossego" e o aniversário da Casa Fernando Pessoa (e da morte do autor) eram o pretexto. Fui convidada para participar de uma leitura de excertos do livro, juntamente com o Carlão, acompanhados (na música) por Pedro Geraldes. E esse foi, por sua vez, o pretexto para reler o conjunto de fragmentos que compõe a maior obra de Pessoa.

Como muitas outras pérolas da literatura portuguesa o "Livro do desassossego" não deveria ser lido na adolescência. A imaturidade faz da leitura chã e é impossível mergulhar fundo, como o livro exige, no desamparo existencial, no tédio absoluto, na tristeza primitiva, na ironia abrasiva e na total solidão que atiraram o autor para a escrita.

Ao reler, percebi impactada que passei ilesa na primeira leitura, por falta de vida para compreender o tamanho da dor que o livro contém, para entender a escolha de fazer da escrita o sentido, sempre no limbo entre o sonho e a ação (ambos desprezíveis, segundo o autor), para ensaiar uma imperfeita confissão do desespero de existir. Percebi que não tinha como empatizar, como chegar perto daquela sombra, que de dia se dizia funcional, cumprindo com a rotina e observando o mundo a partir da cidade de Lisboa, mas que de noite vagava como um fantasma dentro do seu próprio medo.

PUB

Foi duro perceber que me identifiquei sobretudo com o tédio. (Acho que até há muito pouco tempo isso não seria assim). Foi surpreendente subentender que, mesmo profundamente só e atormentado, o autor conseguia manter um compromisso com a escrita, sempre exímia, explorando as suas emoções com tanta mestria que nem se sente a falta de ações que componham uma narrativa. É de facto uma obra-prima e eu precisei de chegar à metade da vida para o confirmar.

Num tempo em que o diapasão da positividade tóxica nos exige que performemos permanentemente a volta-por-cima. Que a autoajuda ganha espaço nas livrarias. Que ensaiar a imaculada perfeição quotidiana nas redes sociais nos torna mais ansiosos e sós, mas não nos autoriza a demonstrá-lo. Ler Bernardo Soares celebrar o seu desassossego em escrita, assumindo-o como lugar no mundo (e não apenas como estado de espírito) é muito forte. É claro que, por um lado, faz pensar sobre saúde mental e sobre quem vive preso dentro da sua própria angústia, mas, por outro, demonstra bem que a tristeza, a solidão, o tédio e o medo são substrato fértil para a criação e são tão aceitáveis como outra emoção qualquer. Afinal, como diria o próprio (na pena de Alberto Caeiro): "Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é."

*Música

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG